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sábado, 23 de setembro de 2017

O diagnóstico tardio, as amizades e a importância disso para os seus filhos


Autista de alto funcionamento ou autista asperger é o termo que se usa para as formas mais leves de autismo, em alguns casos até mesmo imperceptíveis para os que não tem um olhar mais apurado sobre o transtorno.


Estamos vivendo uma época em que todos dizem não ter preconceito, mas poucos aceitam, acreditam e confiam de verdade em uma pessoa de posse do diagnóstico. Muitos mitos ainda nos rondam, nossa missão não é nada fácil e nossa vida em meio a um mundo cheio de malandragens é muito difícil de ser compreendido.

Nós Asperges, estamos mais próximos da neurotipia do que do transtorno propriamente dito. Isso nos torna pessoas mais cobradas nas regras sociais, na desconfiança que existe sobre a realidade do diagnóstico e também na dificuldade de se manter em uma rede real de amizades... Por vezes pensam que temos a mentalidade infantil ou que não temos condições de assumir um compromisso sem desistir na metade do caminho.

Existe a sensibilidade ao toque, aos cheiros, aos sons, aos estímulos visuais, mas existe também a sinceridade, a transparência e a capacidade de vencer barreiras que poucas pessoas conseguem sem estar no espectro. Por isso a importância de uma rede de amizades, não exatamente pela quantidade e sim pela qualidade desses amigos que nos tornam mais fortes e inseridos no mundo. Nosso feeling é aguçado e percebemos de longe quem gosta da gente, quem não gosta ou quem é falso. É uma espécie de sexto sentido que não raramente demora para aparecer, podemos facilmente ser seduzidos ou enganados, mas quando percebemos, a impressão nunca será falha.
Não gostamos de ser encarados como seres de outro planeta, como doentes ou incompetentes. Somos diferentes, mas com uma consciência gigante sobre a nossa missão, os nossos direitos e nossos deveres. Quem se aproxima e gosta da gente, é de verdade, do jeito que somos. Isso não quer dizer que queremos ser aceitos a qualquer custo sem abrir mão de nada. Sabemos que precisamos ceder por um lado, enquanto as pessoas cedem por outro e assim temos a chance de nos encontrar bem no meio do caminho.

Mas pare e pense no porque desta busca incessante pelo diagnóstico, por parte de muitos pais e mães de autistas. Imagine-se desajustado do mundo toda uma vida, até o dia que você encontra uma pessoa que “meio que te entende”, casa e: tem um filho autista! Então você passa a virar especialista no assunto e percebe que na verdade você não foi tão estranho assim, mas sim você foi incompreendido, solitário, vítima de amigos, parentes, professores, colegas e uma lista infindável de pessoas que nunca te aceitaram como você realmente precisava...

Resgatar a própria história e buscar respostas para perguntas que não pareciam ter soluções é saudável e esperado por todos que viveram a exclusão social e o abandono. Ajuda, inclusive, a transformar as próprias experiências em lições para ajudar aos nossos filhos a superarem as suas próprias dificuldades, transformando assim um obstáculo em um grande degrau que os impulsionará a serem livres e aceitos não somente pela sociedade, como também por si mesmos.

Eu percebi que meu filho se daria melhor na escola sem a professora auxiliar quando me recordei sobre a minha infância na vida escolar. Percebi que se eu tivesse uma monitora para sair da sala de aula comigo eu jamais teria concluído sequer o ensino fundamental. Minhas fugas da sala de aula eram constantes e minhas pernas pareciam que iriam sair correndo sozinhas se eu continuasse sentada. Até a cor do batom da professora era capaz de me gerar desespero, mas como eu tinha medo de andar sozinha acabava ficando a maior parte do tempo me controlando para permanecer ali, pelo menos fisicamente já que minha mente permanecia constantemente perdida em minhas próprias ideias.

Ao resgatar a sua experiência de vida terás mais compreensão consigo mesmo, mais aceitação com a sua realidade e mais capacidade de ajudar os seus filhos sem o medo do desconhecido. Não estamos vivendo uma época em existam mais autistas, mas sim uma época em que existe uma gama maior de conhecimento por parte dos especialistas e o diagnóstico de pessoas que jamais sequer desconfiaram serem autistas antes de receber a notícia de que seus filhos o são.

Eu, que tive um diagnóstico aos nove anos de idade, que foi escondido pela minha mãe uma vida inteira (para a minha própria proteção), que sofri bullying desde muito pequena, tive hipoglicemia, crises de vômito, de choro, de “anorexia”, de medos, traições e abusos, consegui lutar, morei de forma precária durante muitos anos, dormindo no chão, sem alimentos, sem aquecimento, sem condições mínimas de sobrevivência, consegui trabalhar, namorar, casar, ter filho... Sou empresária, escritora, blogueira... Dei a volta por cima, sempre acreditei que não existiria um mundo ideal para mim, mas que eu buscaria meu espaço por onde quer que eu fosse. Agarrei com todas as minhas forças as minhas amizades o tempo que foi possível, me dediquei a trabalhos que achava que eu daria conta e evitei assumir compromissos dos quais achei que não daria conta de cumprir.

Fica difícil imaginar porque uma pessoa como a gente seja esquecida pelos amigos ou que seja vítima de preconceito. Pois é, acontece que são poucas as pessoas que gostam de sinceridade, isso parece muito bom em um primeiro momento, mas nem sempre se quer ouvir a verdade sobre o seu cabelo estar horrível ou sua bunda estar caída caso você peça a minha opinião. Da mesma forma, pode parecer desagradável eu demorar para perceber que você está cansado e que não quer mais a minha companhia. Ou, ainda, que saio imediatamente de um local em que tenha um inseto voando. Também o fato de não gostar de surpresas coloca as pessoas muitas vezes em decepção, prefiro ouvir antes o que você quer me dizer ou com o que você quer me presentear, não é falta de respeito, é apenas uma segurança de que saberei lidar com a situação.

Posso parecer falsa em não conseguir olhar nos seus olhos em um primeiro momento, mas posso ser mal interpretada com a profundidade do meu olhar, que é capaz de atravessar sua alma caso eu confie em você.

As amizades, a busca pelo diagnóstico tardio, a possibilidade de resgatar sua própria história e desvendar os mais profundos mistérios do seu ser te levam a uma sensação de plenitude e leveza. Não subestime as suas impressões, não se abale com o primeiro péssimo atendimento por parte de um profissional que desmerece as suas impressões e não se entregue sem ter a certeza de que chegou ao fim da linha. Acredite em profissionais de verdade, que irão te ajudar a fazer tão sonhada viagem interior.
Tente ser um pouco melhor a cada dia, mas liberte-se da ideia de perfeição. Seja humilde em falar sobre as suas dores, não tenha vergonha de suas lágrimas e ensine os seus filhos a sentir o que, de fato, deve ser sentido. Um dia eles precisarão entender que todo mundo sente dor e que tentar ser perfeito só te leva ao caminho da solidão. Observe as pessoas ao seu redor. Somente conhecendo o seu próximo é que você será capaz de sentir a real necessidade do que ele realmente precisa e, assim, poderá ser útil de verdade, longe do egoísmo e da busca pelo reconhecimento.

Relaxe, sinta-se feliz e não se cobre tanto. Viva os seus sonhos e se dê sempre uma nova chance, não importa quantas vezes você precisará recomeçar.

Um beijo muito carinhoso, fiquem com Deus.


KenyaDiehl

Escritora, blogueira e empresária


Facebook: Kenya Diehl

Instagram: @kenyadiehl


sexta-feira, 15 de setembro de 2017

A vida de um autista - como foi até aqui - sete anos


Gestação de risco, sete meses passados mais no hospital do que em casa. Com trinta e três semanas e cinco dias nasceu o Guilherme, 46cm, 2,025kg, apgar 8-9, extremidades roxo-esverdeadas, placenta igual. Mãe com febre, 39-41Cº, parto cesáreo, de última hora, dificuldade de aplicar anestesia, bolsa rompida há cinco dias, mãe desfalecendo, bebê perdendo batimentos... Nascia o milagre de Deus.

Resumo rápido da nossa história em função de já ter este texto em detalhes no blog... Um mês de UTI, diversas intercorrências, meningite, hemorragia pulmonar, mal convulsivo, cateterismo rompido, infecção, não reação a antibióticos e um sem número de acontecimentos que me fizeram sofrer e crescer...

Após a alta, Guilherme ainda teve uma convulsão em casa e, aos três meses apresentava desenvolvimento e tamanho esperados para a idade. Mas... O tempo foi passando e ele se apresentava sempre muito calmo, satisfeito com tudo, dormindo demais, demorou a sentar, a rolar na cama, a ficar em pé, intestino preso, olhar meio diferente...

Eu sabia que ele seria autista. Eu não queria isso para ele, tinha fé de que passaria despercebido no "gene" que carregava e também no sofrimento que passou desde os primeiros sopros de vida. Me acabei, engordei, emagreci, chorei, ri e lutei muito... Até o momento em que ele não quis mais dormir no colo e eu passei a dormir no berço com ele... (choro ao relembrar)...

Aos treze meses convulsões generalizadas, focais e mal convulsivo que perduraram até os dezenove meses... Próximo aos dois anos parou de comer e passou a perder as habilidades da fala que já havia conquistado. Desenvolveu hipoglicemia, hipotermia, hipotireoidismo, hérnia hiatal e hipotonia muscular com perda de massa óssea, nessa época mal parava em pé...


Me isolei do mundo com ele, por um ano, sem sair de casa, inspirada no filme “meu filho meu mundo”, entrei no universo dele e o trouxe para o meu.

Gui tinha um extenso vocabulário de palavras soltas, mas não sabia as utilizar, nem se quer ecolalias ele fazia. Movimentos repetitivos, crises de choro e de nervos, noites sem dormir, sem comer, praticamente sem viver... Meu casamento foi para o espaço, eu não era mais a mesma, ninguém mais se encontrava e nossa vida virou um verdadeiro caos...

Mas aos poucos ele foi melhorando, com muito empenho, pouca cobrança, aos quatro anos ele comia um alimento por vez, repetia as frases que ouvia, sem muito sentido, sempre tentando  adequar à sua realidade.

Enfrentei todo o mais que todas as mães de autistas enfrentam. Problemas digestivos, de sono, de ecolalias, de estereotipias, de críticas e descrença dos familiares, de perda de amizades, de solidão, de medo, frustração e vontade de sumir...

Guilherme trocou de escola oito vezes, até estar no lugar e no momento que são realmente bons para ele. Trocou também inúmeras vezes de médicos, de terapeutas e foi afastado de muita gente que não o compreendia.

Sempre cantei com ele, conversei muito e nunca deixei de pedir sua opinião para tudo, contar sobre minha vida e sobre os meus sonhos, ainda que parecesse que ele não me ouvia. O fato de ter vindo do autismo me trouxe uma sensibilidade muito grande perante o autismo e o universo particular dele.

Sempre fui muito direta com ele, ordens curtas e diretas, muito carinho, insistência e paciência. Evitei o tempo todo em pensar sobre o que ele seria no futuro. No fundo eu sempre soube que se eu me dedicasse integralmente ao momento presente eu teria certamente um amanhã melhor, isso me fez forte e corajosa. O que eu queria era que ele não sofresse. Se ele estava feliz, eu estava feliz, se ele estava triste eu estava tentando buscar uma solução para lhe fazer feliz. Meu raciocínio logico e pontual fez com que eu tivesse coragem de passar pelas turbulências sem medo de fracassar. Eu confiava mais em mim do que em qualquer pessoa sobre o que era melhor para ele.

Passei anos traduzindo a ele o que ele sentia, o que ele pensava e tive o dom de aceitar todas as dores dele sem querer as evitar a todo custo, chegando muitas vezes a sentar e chorar com ele dizendo que realmente nossa situação com o mundo não era das mais favoráveis...

Dei ao Guilherme uma noção de amor e de realidade que poucos adultos têm coragem de fazer. Ensinei ele a ler minhas expressões, de tristeza, de braveza, de alegria, de leveza... E desde muito cedo o ensinei a entender que se eu estava triste e chorando esse era um direito meu e que isso nada tinha a ver com ele. Ensinei ele a separar nossas dores, nossos medos e nossos sonhos. O direito dele acabava onde começava o meu e vice-versa.

Atualmente (2017) Gui está sendo brilhantemente alfabetizado, largou as fraldas noturnas no inverno deste ano, entra na escola sem chorar, não precisa de professora auxiliar, não tem estereotipias, é muito bom em trocas, tem um altruísmo admirável e a única briga em que se envolveu na escola foi para defender uma amiga que estava apanhando. Come de tudo, conta o que acontece quando está longe de mim, assiste a filmes, desenha, viaja para longe de casa, consegue ouvir, olhar nos olhos e sabe que o centro do universo não está nele, mas sim no mundo que o cerca e que o completa.

Sempre que um comportamento inadequado aparece eu corrijo de imediato, como estalar os dedos ou se bater... Guilherme é esperto, apronta suas traquinagens, a ponto de eu muitas vezes ter que me segurar para não comemorar ao invés de dar bronca, afinal, preciso educar, mas vê-lo na cozinha raspando um pote de Nutella com a colher ou escondendo uma lata de coca cola aberta na mochila são coisas que realmente me deixam feliz...

Deixo ele livre para gostar do que quiser desde que isso não prejudique os outros, para ser triste o suficiente para assimilar suas dores e se machucar o mínimo para crescer entendo a noção de perigo...

Eu erro sim, erro muito como toda mãe, mas o que nos salva é o hábito da reflexão, da busca por corrigir nossos erros e de entendermos que o mundo nunca será perfeito para nós e que também não devemos nem querer ser perfeitos para o mundo. Respeitamos as pessoas, sabemos exigir nossos direitos e também sabemos a hora certa de abrir mão deles em prol do bem de todos.


Diariamente é uma luta, é um aprendizado novo, às vezes mais fácil, às vezes mais difícil e poucas vezes impossível. O que podemos mudar a gente luta, o que não podemos mudar buscamos aceitar sem se revoltar e muitas vezes choramos sem parar, assim como nossas incontáveis gargalhadas sobre coisas que geralmente as pessoas não vêm a menor graça. Faz parte da vida, ninguém é anormal ou normal. A diferença está na forma como conseguimos vencer as barreiras da vida.

Quanto menos julgamos os outros, mais somos satisfeitos com nós mesmos.

Viva, sorria, chore, dê gargalhadas, grite, se rebele, coma um hambúrguer, olhe as estrelas, faça o que tem vontade, não crie expectativas demais sobre as pessoas e também não as encha de expectativas sobre você. O amanhã a Deus pertence, mas o hoje é um presente que Ele te deu e só você poderá decidir se irá utilizar ou não.
Beijo muito carinhoso,
Fiquem com Deus.
Kenya Diehl
kenyadiehl@gmail.com
051991984264



terça-feira, 22 de agosto de 2017

A vida de um autista adulto de alto funcionamento


Autista adulto – alto funcionamento e os tabus

Era inverno do ano passado, quando resolvi tirar um “peso” de minhas costas e assumir para o mundo que, desde os nove anos de idade convivo com o Transtorno do Espectro autista. Sou escritora, empresária do ramo de locação de motos big trails, blogueira e ativista na luta pela conscientização do autismo. Sou esposa, mãe, filha, irmã e tenho toda uma vida cheia de sonhos, frustrações e também alegrias...


Tenho 34 anos e, quando ouvi falar em autismo pela primeira vez, me lembro do termo asperger, algo que parecia um pouco menos pior do que o autismo propriamente dito... Mas não foi bem assim que as coisas aconteceram.

Ter o título asperger no rótulo da minha “embalagem” me fez viver em uma sombra de que a aqualquer momento eu poderia entrar nas profundezas do autismo e nunca mais sair. Era um sentimento dividido, afinal, o esforço para ser aceita era imenso e a vontade de ir para a lua era proporcional ao medo que eu sentia do mundo. Foi algo guardado por mim e pela minha mãe durante um pouco mais de vinte e cinco anos. Eu não tinha opção, precisava lutar.

Sempre fui diferente, esquisita e sincera. Tinha sérias dificuldades de me encaixar nos padrões esperados para pessoas com a minha idade, não importava a idade que eu tivesse.

Hoje, com toda uma vida construída e com um olhar profundo sobre as coisas e sobre a vida, muitas pessoas me questionam sobre o que ainda há em mim que esteja relacionado ao autismo. Perguntam se fui curada ou se tive a perda do diagnóstico. Infelizmente não posso afirmar que sim, mas posso dizer que diante de todas as maldades do mundo, teoricamente eu me dei bem.

Sou uma pessoa “normal”, quem me encontra pessoalmente me vê sempre com as unhas bem pintadas, as sobrancelhas bem feitas, a maquiagem impecável e o mesmo perfume adocicado que uso há alguns anos... Sou uma pessoa responsável, amável e preocupada com os problemas da humanidade, mas... E sempre tem o mas... Não consigo sair de casa sem maquiagem, chegaram a me perguntar se uso maquiagem definitiva, mas a verdade é que o fato de colocar a maquiagem de manhã e retirar a noite faz parte de um ritual de rotina que me mantem segura. Os cuidados com o meu corpo, a minha pele e os meus cabelos são uma espécie de hiper foco, não consigo ser diferente. Minha casa está sempre impecável e os imprevistos na rotina não são bem vindos. Não saio sem lavar a louça ou arrumar a cama, não que isso vá me fazer mal, mas pensar em entrar em casa com algo fora de ordem me gera medo e medo não é bom para mim. Choro com facilidade, mas sou capaz de não derramar uma lágrima sequer, caso eu seja responsável por segurar as dores dos outros... Me alimento sempre das mesmas coisas, tomo sempre as mesmas bebidas e todas as vezes em que tentei frequentar uma academia de musculação foi um verdadeiro desastre, até o dia que resolvi montar minha própria academia em casa.

Tenho medo de insetos, barulhos muito altos me incomodam e praticamente não sinto dor, quando sinto é porque já chegou ao nível avançado para qualquer ser humano. Cheguei ao ponto de ir trabalhar de salto alto com dois dedos do pé esquerdo quebrados para não perder a vaga de emprego que eu havia conquistado... Sou literal ao extremo, falo demais, faço movimentos e expressões de menos e geralmente não sei a hora de parar de me explicar...

Por outro lado, sou uma pessoa alegre, cheia de sentimentos, de sonhos, de desafios, amo amar as pessoas, sou fascinada por música e seriados, tenho paixão por tratamentos estéticos e amo pessoas com necessidades especiais... Sei lá, eles tem um valor diferente sobre as prioridades da vida. Adoro sexo, sim! Autistas fazem sexo, se apaixonam, amam. Isso é um tabu, eu sei, mas independentemente do comprometimento de cada um, temos um corpo físico, cheio de hormônios e com as mesmas necessidades de líquidos, alimentos e – sexo!

Quando gosto de algo, gosto para valer, me apego facilmente, adoro pessoas, adoro enrolar fios de linha entre meus dedos e também tenho fascínio por temporais... Sou muito inteligente naquilo que me interessa, como dirigir, cantar, escrever, amar, me doar ao próximo. Nas faculddades que fiz tirava dez nas matérias relacionadas ao lado humano, mas tirava zero nas disciplicas ligadas às exatas. Sou o contrário da maioria dos autistas que têm bom desempenho com números. Nunca fui muito inteligente e sempre fui voltada para a área de desenvolvimento pessoal.

Não gosto de multidões, odeio mentiras e sou excelente em executar missões que me são confiadas. Meu coração é incapaz de reter mágoas, raiva ou qualquer coisa que seja destrutiva. Sofro muito quando sou mal interpretada, mas se ganho um presente sou eternamente feliz desde o momento em que vejo a embalagem...

Flores me fazem sorrir, sangue me faz chorar, palavras doces me fazem amar. Os toques suaves na pele me doem, mas a pressão feita com força e intensidade me levam ao paraíso. Corto meu próprio cabelo, faço minhas unhas, lavo meu carro, limpo minha casa. A única excessão é a estética que frequento, que é a própria dona que me atende e tem minha confiança de olhos fechados...

O que mais dói é o preconceito, a pré determinação do que acham de mim, das deduções sobre mim que geralmente não são verdade e da falta de honestidade sobre as coisas da vida...

Essa sou eu, sou do bem, sou única, tenho um DNA exclusivo e minha própria forma de enfrentar as dificuldades da vida.

Pare para pensar em quem você conhece que não tenha suas manias e esquisitices... Por isso eu amo a diversidade, aos vários modelos de famílias existentes e, acima de tudo, eu amo as pessoas, as suas almas e as suas histórias de vida.

Sou mulher, sou mãe, sou esposa, sou filha, sou humana, amo a vida e me aceito como sou.

Em novembro será lançado um livro sobre mulheres empreenderoras no qual tenho um capítulo com alguns detalhes sobre minha história de vida. Isso é uma de minhas grandes vitórias, mais alguns projetos que estou colocando em prática, como o meu ebook já publicado falando sobre o autismo e uma terceira publicação sobre a minha vida, sem cortes e nem edição. Tudo isso para motivar pais, mães e autistas a lutarem pelos seus sonhos.

O que molda sua vida? O tanto de conhecimento que adquire ou a forma como o utiliza? Certamente a segunda opção. Todos os seus caminhos são determinados pelas decisões que você toma ao longo de sua trajetória. Há uma força em seu interior que o torna capaz de superar quaisquer obstáculos e a ausência de ansiedade com certeza é o que te proporciona ter a tranquilidade de entender que o seu esforço sempre será recompensado.

Beijo muito carinhoso,

Kenya Diehl

Escritora, empresária e blogueira.
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domingo, 13 de agosto de 2017

Dia dos pais - aos pais de autistas


O mais marcante ato de entrega de um pai talvez seja concretizado no momento da gestação de seu filho. Afinal, a mãe carrega somente para si, durante nove meses, aquele que virá a ser a pessoa com quem terá a mais rica conexão de todas, que conhece pelo cheiro, pelo olhar, pelo som da voz. O pai não tem alternativa senão a de confiar que a mulher irá se cuidar, se alimentar bem para nutrir a criança durante o processo gestacional, que não irá se estressar e nem colocar a vida de seu filho em risco. A mudança é gigante no corpo e na mente da mulher exatamente no momento em que desconfia estar grávida. Mas para o homem, muitas vezes essa informação só é processada quando se vê com um pacotinho nos braços, sem saber o que fazer para acalmá-lo. Então vem a primeira grande decepção. O pai apaixonado se apega ao bebê, tanto quanto a mãe, sangue do seu sangue, geralmente com boa parte de suas feições... Mas quando ele chora é natural que se acalme nos braços da mãe. Se alimenta do alimento da mãe, passa a ser a extensão do corpo da mãe... O homem que tinha uma esposa, que lhe cuidava e trazia segurança, de uma hora para outra passa a ser uma mulher atarefada, ocupada demais com o bebê para lhe dar atenção, e o pior, com uma pessoa bem pequenininha que disputa pelo espaço, tempo e dedicação desta mulher que passa a ser o troféu de quem vence pela maior insistência - pai ou filho. Mas o pai só ganha quando o filho está totalmente satisfeito em suas necessidades e manhas...

A casa não é mais a mesma, a mulher também não, o som ambiente, o ar condicionado, os alimentos, a programação de férias, tudo gira em torno da criança.
O homem que assume a liderança deste caos momentâneo e não se deixa abater pelas dificuldades é idolatrado pela família que o tem como ponto de equilíbrio entre a razão e a emoção. Não é fácil vencer essa barreira inicial e, em se tratando de filhos autistas, tudo fica um pouco mais difícil ou terrivelmente mais difícil...
Pai de menino sonha em jogar bola, consertar carros, assistir ao jogo de futebol, disputar sobremesas... Pai de menina sonha em proteger sua princesa dos ameaçadores meninos de três anos que dão em cima delas, claro papai vê coisa onde não tem! Sonha em lhe dar coleções de Barbies, vê-la tentar usar o salto alto da mãe e ser o maior grande amor de sua vida...E o baque é imenso quando se recebe o diagnóstico. O que fazer com tantos sonhos? Como brincar com uma criança que só gira objetos e não me olha nos olhos, não tenta disputar espaço e também não apronta suas traquinagens para ter aquela conversa séria de final de tarde... Como estar na roda de garotos quarentões que se gabam da esperteza de seus pequenos gênios?

Mãe já vem com o gene da resiliência, da fé, da entrega... Mãe defende que nem fera e é capaz de sorrir por dezoito horas porque seu filho de sete anos aprendeu a puxar a descarga... Mas o pai, este precisa de mais cuidado, seus sentimentos são tão à flor da pele que precisam muitas vezes ignorar o autismo por um bom tempo para não se entregar e desistir de tudo...
Mas o pai que consegue vencer suas próprias barreiras, manifesta-e como um verdadeiro herói, se alegra com pequenas coisas, carrega malas e mais malas com roupas extras, medicamentos e despertadores para não esquecer de nada. Ele deixa para o filho a melhor parte do bolo, a melhor hora da televisão, o lado mais doce de sua mulher... E ainda assim consegue manter o sustento da casa, o bom humor e a coragem. Aprende a ter fé, a orar, a rir sem motivo. Aceita ser chamado de maluco, enfrenta o frio de manhã cedo para trabalhar e se alegra em ver mulher e filho desfrutando da cama quentinha que pode lhes proporcionar... No fim do dia deixa seus problemas do lado de fora e se interessa pelo desenvolvimento do filho, passa a ser perito em assistir vídeos que ele não suporta só para agradar ao filho e ouve atento a esposa contar sobre o que enfrentou durante o dia na luta pelo espaço no mundo.

Homens que abriram mão de muitos sonhos, que desinflaram seus egos, que não esconderam suas lágrimas. Que venceram uma barreira imensamente maior que a da mãe em aceitar o diagnóstico e se orgulhar do filho. Esses homens são pais especiais, maridos especiais e homens sensacionais. 
Existem dias bons, dias ruins, dias excelentes e dias péssimos também. São ciclos que se abrem e se fecham como uma coreografia da vida em que sempre temos que improvisar em cima do tempo. Mas existem os dias especiais, aqueles em que nos sentimos tão bem que guardamos para sempre a lembrança viva de cada segundo experimentado. Que este dia dos pais seja um dia inesquecível e que seu maior presente seja o amor de sua família. Não importa de que jeito ela é. Família é aquela que Deus te permitiu escolher e você é o grande responsável da nobre tarefa de ser atendido pelo nome de PAI. 

Lindo dia dos pais a todos os pais, mães que cumprem o papel de pai e ao Pai de todos os pais - Deus. 
Beijo muito carinhoso. Fiquem com Deus.
KenyaDiehl
Escritora, empresária e blogueira
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domingo, 6 de agosto de 2017

A dura rotina da mãe de autista - o que te faz vencer


​A dura rotina da mãe de autista
Mães em geral nunca param. E a mãe de autista parece ter uma força sobrenatural que, apesar de sentir cansaço e por vezes querer desistir de tudo, isso não passa de mera vontade e logo encontra energia para seguir adiante.
São atividades infinitas, que tomam muito tempo. Desde a hora em que acordam até a hora de dormir estamos funcionando, temos o sono leve, parecemos nunca desligar de tudo. Em situações comuns há as atividades diárias, como lavar roupas, limpar a casa, trocar lençóis, toalhas de banho, lixeiras, manter os armários abastecidos com alimentos, produtos de higiene para a família toda, a geladeira em ordem e a comida pronta. Mantemos as crianças na escola, participamos das reuniões, compramos tudo que é solicitado, ajudamos nos temas de casa, cuidamos dos bichinhos de estimação...
Mães especiais ainda precisam se preocupar com a medicação, o horário e o não esquecimento das doses e também em não deixar o remédio faltar. Precisamos distrair nossos filhos o tempo suficiente para que não se percam em seu mundo, eles não podem passar mais do que alguns minutos sozinhos na sala, pois sua ingenuidade os coloca em risco. Precisamos ensinar cada detalhe, desde como se faz para lavar as mãos até como é possível aguentar o barulho do liquidificador... O detalhe é que para crianças autistas é necessário ensinar muitas e muitas vezes, ser forte para não desistir e não lhes tolher a possibilidade de serem independentes um dia... Temos a forte tentação de fazer tudo por eles, afinal, seria mais rápido, teria menos bagunça para limpar e eles teriam suas necessidades atendidas e sofreriam menos... Mas mantemos o equilíbrio e os incentivamos a fazer as coisas sozinhos, como servir a própria água, ainda que com a mão tremendo e se molhando, temos a paciência de esperar que consigam tirar ou vestir a roupa - tarefa difícil! O dia parece ter umas cinquenta horas...
As viagens intermináveis com terapias e busca por tratamentos eficazes e humanos fazem a nossa energia ir para o espaço de vez em quando... Ainda há as pessoas... Ah! As pessoas, impossível não mencioná-las. Precisamos responder a perguntas como: "porque você não atendeu ao telefone?", "o que tem feito de bom ultimamente?" ou "quando vai conseguir assistir ao filme que te indiquei?". Não percebem a correria que vivemos e quão mágicas conseguimos ser. Geralmente não temos tempo de ir ao salão de beleza, então aprendemos a fazer tudo sozinhas, cabelo, unha, maquiagem, depilação... Sim! Somos mulheres e temos vaidade...
E se a mãe do autista é também autista, certamente é tão cheia de manias quanto seu filho, tem rituais e padrões que acabam por prejudicar a aceitação de ajuda por parte de terceiros, isso dificulta por um lado, mas facilita por outro e no fim das contas sai tudo certinho como planejado.
Nós, mães especiais aprendemos a ser tolerantes, a dar explicações, a ter saídas estratégicas em momentos de crise, batemos de frente com o preconceito e também somos rápidas e estamos sempre sorrindo, principalmente quando alcançamos uma conquista que parecia inatingível, como ouvir o filho nos dizer o que sente ou manifestar o desejo explícito por alguma coisa. Nossos dias, enfim, são agitados de domingo a domingo...
E quando ficamos doentes? Quando sentimos dores ou precisamos de uma cirurgia? A resposta não é nada simples...Existem maridos que dão total apoio e conseguem ajudar bastante, existem mães e sogras dispostas a apoiar seja em qual situação for. Porém, na maioria dos casos a mãe do autista adia a ida ao médico, ignora as dores físicas e esconde as dores da alma. Boa parte delas toma medicamento para ansiedade e para depressão e acaba também ingerindo anti-inflamatórios e analgésicos com frequência. Isso tudo pode esconder algo mais grave... Já vi casos de mães jovens com avc ou infarto fulminante, entre outras situações que chegaram ao extremo. Então, ainda ouvimos comentários sobre nossa felicidade não ser de verdade... Como assim? Nossa felicidade é real sim, mas a sobrecarga também é real. Dificilmente alguém se prontifica para ajudar sem tentar mudar tudo ou sem criticar o excesso de cuidados ou a falta dele com nossos filhos.
Então, quando a doença chega, pode ser uma simples gripe ou um câncer, tudo muda, por uns dias, umas semanas, uns meses ou para sempre. Temos que aprender a delegar funções, a suportar ver nossos filhos insatisfeitos em nos ver acamadas e com medo sem nem saber de que... A casa fica diferente e a segurança da rotina vai para o espaço fazendo com que nossos filhos percam por vezes o equilíbrio...
O que nos mantém de olhos abertos é justamente o amor pela família e o desejo instintivo de fazer nossos filhos felizes... Com frequência sorrimos as lágrimas e gargalhamos as dores... Tudo isso para ver felizes nossos mais preciosos tesouros - as pessoas que amamos.
Cada pequeno progresso é uma vitória conquistada e nossa saúde se restabelece muito mais rápido do que o esperado. A força das mães especiais é superior às dores, aos medos e aos procedimentos médicos. Nossos valores vão muito além da estética e da aparência física, de disputas por medalhas ou da vontade de ter o filho mais inteligente do grupo escolar... Nossos valores vem do espírito, nosso maior sonho é desenvolver a independência de nossos filhos e soberanamente lhes desenvolver a arte de ser felizes e gratos pela vida.
Todas nós viemos ao mundo com uma missão especial. Somos imperfeitas e precisamos evoluir dia após dia. Troque os sentimentos negativos por positivos e experimente a paz que Deus lhe concedeu. Muitas vezes as coisas não saem como gostaríamos, mas viver em conjunto com as pessoas envolve abrir mão de muitas coisas, pois todos querem ter seus desejos respeitados, ainda que parcialmente. Não se culpe por erros que eventualmente você tenha cometido, você fez o que estava ao alcance do seu conhecimento no momento em que tudo aconteceu. 
Valorize-se pelo que você é hoje. Troque a raiva pelo perdão, o medo pela confiança, a inveja por admiração, a crítica por compreensão, a briga por conciliação e a culpa pelo amor, o amor pelos outros e também a si própria como obra única de Deus, pois não há outra igual a você. Não desperdice sua existência com sentimentos ruins, jamais se sinta menos do que alguém, as diferenças existem para que possamos aprender uns com os outros. Da mesma forma não se sinta mais do que ninguém, todos estamos aqui para tornar o mundo mais feliz e a humildade é a chave que abre a primeira porta da realização dos seus sonhos e de sua verdadeira missão consigo mesma e com o mundo.
Beijo muito carinhoso. Fiquem com Deus!
Kenya Diehl
Escritora, empresária e blogueira.
facebook/kenyatldiehl


quarta-feira, 19 de julho de 2017

​Sobre a socialização


O autismo inicialmente nos faz pensar em um indivíduo isolado, que não se comunica, não interage com as outras pessoas e nem com o mundo. Um universo singular, onde só entram convidados e em muitos casos não entra ninguém além da sua própria mente. Porém, por ser um mundo singular, se respeitado o seu desejo de ser exatamente quem é, há a possibilidade de ter bem à sua frente um comportamento carinhoso, afetuoso, delicado e cheio de amor.


O autista tem medo de que seja lhe imposto o desejo alheio, por isso muitas vezes se isola, tem a fala preservada, mas não se comunica por ser muito mais seguro permanecer em seu mundo, do seu jeito, do que se enquadrar nas normas sociais ditadas como corretas ou esperadas, mas que lhes gera muita dor e sofrimento, pela sua forma de enxergar o mundo em quadros separados, por não suportar o toque suave na pele, precisar de pressão em seu corpo, ouvir extremante alto e todas as demais dificuldades de conviver em grupo.

Há um caminho a ser percorrido quando se descobre estar diante do autismo, um caminho delicado, paciencioso e altruísta, em que não há espaço para cobranças, orgulho ou vergonha de ser quem se é.

Primeiramente é preciso trazer segurança, estabelecer um elo de confiança de que, se o seu filho autista vier para o seu mundo, ele não precisará abandonar o dele, pois você o ama primeiramente pelo que ele é. Depois, com o tempo é possível lhe mostrar que muito embora seja muito legal ser ele mesmo do jeitinho que é, todos nós precisamos deixar um pouco de nós mesmos para conviver em harmonia com os outros. Da mesma forma, o outro também nos aceitará em nossas diferenças e deixará um pouco de si para desfrutar da convivência. Quando ele entender que não existe pressão para que seja quem ele não é, que você apenas lhe pede cooperação, interação e a chance de ter uma vida com trocas, entrega, lutas, perdas e ganhos, terá mais coragem para sair de seu mundo e dividir com os demais o que lhe é mais precioso - o íntimo de sua mente e de seu coração.

Em alguns casos temos o excesso de socialização, em que não há o controle dos impulsos pelo contato físico, as frases puras e ingênuas que saem sem filtro, diretamente de sua cabecinha ingênua para qualquer desconhecido que surge pelo caminho. Isso pode ser tão preocupante quanto o oposto - aquele que não responde para ninguém e não olha nos olhos. Porque o excesso é sempre ruim, todos buscamos por equilíbrio.

Algumas pessoas não gostam desse jeito despachado e exagerado dos autistas, nós mães quase sempre acabamos, sem querer, pulando na frente e mediando a conversa, logo falando que se trata de filho autista. Para nossa surpresa uns nos pedem para deixar que eles falem, outros não respondem nada, ou ainda, riem e perguntam centenas de bobagens sem discrição alguma. Mas com o tempo vamos pegando o jeito, orientando nossos filhos sobre quando falar e com quem falar, sobre o perigo de se entregar a quem não nos merece e também sobre as maldades do mundo e o risco de ser levado para longe, por pessoas mal-intencionadas.

É importante construir uma base sólida com alicerces firmes e boa estrutura emocional. Precisamos sempre buscar conhecimento didático e também físico e espiritual para lidar com nossos filhos e suas regras próprias. Ao invés de reclamar da inconstância do seu filho mostre-lhe toda a estabilidade para que ele copie seu modelo de vida. O esforço não é temporário, é constante e diário, acostume-se.

​Cuide de suas emoções, um vencedor não é necessariamente o que mais tem troféus, mas aquele que, mesmo diante de todas as dificuldades, venceu a si mesmo e guiou seus próprios passos rumo ao verdadeiro conhecimento - o conhecimento emocional. Muitas vezes achamos um caminho tortuoso demais para seguir em frente, mas não percebemos que, ao desistir de enfrentar as pedras da dificuldade, acabamos por escolher um destino superficial e com resultados passageiros, pois não é fácil se chegar aonde se quer, a dificuldade faz parte da realização dos grandes sonhos. As tempestades emocionais servem para chacoalhar as árvores dos seus instintos e, se bem direcionada certamente te levará a colher os mais saborosos frutos - os que estão no topo dos galhos da sabedoria.

Beijo muito carinhoso. Fiquem com Deus.

Kenya Diehl


facebook/kenyatlsdiehl


domingo, 18 de junho de 2017

AUTISMO - Diagnóstico e Direitos

O autismo é um universo novo a cada dia, mesmo para os pais mais habituados com o transtorno, que tem filho há tempos diagnosticado. Agora imagina uma mãe e um pai que percebem que estão entrando no autismo, cada dia mais, com mais sintomas evidentes e ainda não tem a confirmação de tratar-se realmente de TEA.

O diagnóstico é feito clinicamente, basicamente através de análise de sintomas, exames físicos (sensorial e motor) e histórico familiar. O primeiro profissional a estar atento para um possível caso de autismo é o pediatra, que orienta os pais a consultarem com um neurologista que poderá confirmar o diagnóstico e fazer o laudo.

Um ponto muito importante é a observação de comportamentos, que geralmente se apresentam antes dos três anos, mas que também podem surgir após essa idade. Há a presença de padrões repetitivos de comportamento, estereotipias – movimentos específicos que identificam o autismo, como abanar as mãos, dar pulinhos, gritinhos, cheirar coisas, pessoas e tudo o mais que ver pela frente – ausência de olhar no nos olhos, resistência a som alto e muita sensibilidade sensorial – baixa tolerância a toques, texturas, cheiros, sabores, entre outros.
cartão que apresento nas filas preferenciais

Até pouco tempo o diagnóstico era tardio, alguns chegavam a recebê-lo somente na fase adulta e outros acabavam sendo medicados para outros problemas que nada tinham a ver com autismo, devido à falta de profissionais habilitados para reconhecer os sintomas e também pela recusa dos pais em assumir a situação como verdade.

Atualmente temos à nossa disposição um leque muito grande de médicos e terapeutas qualificados que logo de cara percebem que algo está errado e já encaminham a criança para uma avaliação mais precisa. Também temos a nova edição do DSM V – Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais, que reestruturou e padronizou a lista de sintomas básicos para o diagnóstico e também excluiu a definição de síndrome de asperger e a incluiu no Transtorno Global de Desenvolvimento , com um novo nome para a categoria que passou a ser chamada de TEA – Transtorno do Espectro Autista e inclui, além do asperger, aquele que tem transtorno desintegrativo da infância e transtorno global ou invasivo do desenvolvimento sem outra especificação.

Em 2012 tivemos a promulgação da Lei Berenice Piana, nº 12.764/12 que, entre outras importantes questões, define o autista como Pessoa com Deficiência – PCD e assim garante os mesmos direitos dos demais deficientes também ao autista, como atendimento preferencial em filas de locais públicos e privados, meia entrada e (às vezes) isenção em cinemas, teatros, espetáculos, cinemas e eventos em geral. Isso porque o autista pode não ter a tolerância necessária para aguardar até o final e ter que que se retirar antes, é um estímulo para que autistas e familiares se sintam motivados a sair de casa e tentar levar uma vida com os direitos que lhes são garantidos na Constituição Federal. Para isso, basta mencionar o autismo e ter um laudo na bolsa como garantia, caso seja solicitado (nunca me aconteceu, mas eu ando sempre com o laudo atualizado).

placa que utilizo junto com o cartão da vaga de estacionamento
Também passamos a ter direito a vaga especial de estacionamento, sendo necessário ir no Departamento de Trânsito com a documentação solicitada e pedir a emissão do cartão. Além destes, temos a gratuidade na passagem de ônibus e recebimento de benefício equivalente a um salário mínimo em vigor fornecido pelo governo. Para os dois últimos é necessária a comprovação de pobreza, sendo que a família não pode receber mais do que um quarto do salário mínimo em vigor por morador.

Passamos a ter direito a vaga de inclusão com professor auxiliar - monitor nas escolas de ensino regular, tanto público quanto privada, sendo vedada a estas instituições a negativa de acesso, sob pena de sofrer as sanções penais cabíveis a este tipo de caso.

No dia 26 de abril deste ano (2017) foi aprovada a Lei nº 14.138/17 que obriga o Sistema Único de Saúde – SUS, a adotar protocolos padronizados para a triagem precoce do autismo a partir dos 18 meses de idade. Após 180 dias da Sanção da Lei ela passará a valer.

Todos os itens mencionados acima visam a melhoria na qualidade de vida dos autistas, familiares, cuidadores e demais pessoas que convivem com o transtorno.
Recentemente tivemos aprovada a criação da Lei que prevê o Senso Autista no Estado do Rio Grande do Norte, encaminhada pelo Coordenador do MOAB/RN e também foi encaminhada por mim, na Cidade de Porto Alegre, Rio Grande do Sul o mesmo Projeto de Lei, acrescentando a criação do Cadastro Nacional do Autista, que irá gerar uma carteira de identificação para facilitar o acesso aos locais, bem como exercer os seus direitos com maior segurança e tranquilidade.

O objetivo é identificar o autismo em cada cidade, quantificar e mapear a situação socioeconômica dos autistas. Estas ações visam facilitar a criação de projetos sociais e criação de leis que estejam de acordo com a demanda de cada lugar, conforme a realidade identificada pelo Senso.

Existem muitas informações disponíveis na Internet, o que merece cuidado e atenção redobrada por parte de pais e mães que correm em busca de conhecimento para ajudar seus filhos. Há sites confiáveis, mas também muita informação distorcida, promessa de cura e "poções milagrosas" para se livrar do autismo. Atenção para anúncios e textos que usam as palavras: "cura", "infalível", "único", entre outras do gênero. O autismo é um transtorno que pode ser melhorado com as devidas terapias e tratamentos, mas não é uma doença que possa ser curada.

Muitos adultos autistas podem levar uma vida “normal”, com os sintomas adormecidos e independência em seus atos, mas muitos não. Cada caso é um mistério a ser desvendado. O universo autista é cheio de surpresas, possibilidades e capacidades. Cabe a nós, pais, estarmos entregues ao amor incondicional, aceitação e reconhecimento do transtorno. Tudo aquilo que reconhecemos tem a chance de ser tratado, mas se negarmos então estaremos apenas adiando o bem-estar dos nossos filhos.

Um grande número de pessoas está engajada na luta, contribuem relatando seu dia a dia nas redes sociais, como conquistas, medos, frustrações, alegrias e dúvidas. Esse apoio entre as famílias nos faz sentir acompanhados e acolhidos. Nos dá mais força para fazer o que tem que ser feito.

adesivo de conscientização
Com artes simples criei banners, adesivos e placas, que não são nada especiais, mas que fazem muita diferença na minha vida, do meu filho e das pessoas que me solicitaram que eu lhes enviasse também. São formas que criei de conscientizar sem bater de frente. De usar o que tenho no momento para tornar esse mundo melhor adaptado para nós.

Nunca subestime uma ideia repentina que surgir em sua mente. Aquilo que achamos mais superficial pode ser exatamente o que outra mãe precisa ouvir. Coloque em prática!

Espero ter ajudado. Não sou especialista, não sou formada em Direito, mas sou mãe. Luto todos os dias, COM ORGULHO, por um mundo mais humano, justo e inclusivo para nossos filhos autistas e amo com todas as minhas forças a missão que Deus me deu.

Beijo muito carinhoso. Fiquem com Deus.

Kenya Diehl
Coordenadora MOAB/POA – Movimento Orgulho Autista
Coordenadora Intelectual da Secretaria da Pessoa Com Deficiência,
Solidariedade – Canoas/RS
facebook/kenyatldiehl


sexta-feira, 9 de junho de 2017

Hand Spinners e o autismo

Conhecido como hand spinner o brinquedo da moda vem causando a maior sensação entre crianças e jovens do mundo inteiro. Ela gira quando impulsionada pelos dedos. O que se fala é que a peça é relaxante e ajuda na concentração.

Surgiu a informação de que o brinquedo é bem proveitoso para o autista, tendo em vista que geralmente autistas gostam de coisas que giram, que isso teria um efeito calmante e que poderia ser os “minutos de sossego” que algumas mães precisam para que seus filhos larguem o tablet ou controlem a ansiedade em um local público, por exemplo. Tenho recebido questionamentos de muitas mães me perguntando se estas informações procedem e se devem ou não comprar para seu filho autista uma peça igual.

A primeira coisa a se considerar é que, em se tratando de autismo, definitivamente não existe fórmula mágica, seja para uma melhora temporária ou permanente. Temos que ter em mente  que tudo o que mais acalma o autista pode ser também aquilo que mais o leva para seu universo particular e o retira do restante do mundo. Portanto, é necessário ter cautela. O brinquedo é realmente muito bom, sendo necessário apenas ficar atento aos detalhes.

A sensação de prazer é imensa! Ver aquilo girando como hélices e conectando todas as informações dispostas diante dos olhos do autista é muito agradável, sentir a vibração dos rolamentos tocando as pontas dos dedos e subindo pelos braços é melhor ainda. É como um toque na exata frequência que deve ser sentida...

Para os pais que estão em dúvida sobre comprar ou não, eu deixo a dica para que não comprem hand spinners eletrônicos, aqueles que vêm com pilhas e acendem luzes e até podem girar sozinhos. O que mais gera o prazer no autista é justamente o fato de ele próprio poder disparar o giro e, embora pareçam felizes com a ideia de ver o brinquedo girando sozinho e cheio de luzes coloridas, logo pode vir uma crise nervosa porque não era aquilo que eles imaginavam, especialmente os que não tem a habilidade da fala.

Jamais entregue um hand spinner para uma criança autista e o deixe só, se possível compre dois, um para você e um para ele, proponha desafios, trocas e tempo para terminar a brincadeira, converse com ele enquanto brincam e peça para que de tempos em tempos ele olhe nos seus olhos. Deixar um autista olhando um objeto girar incessantemente é o mesmo que lhe abrir as portas de seu mundo particular e dizer que ele pode ficar lá.
Entenda que é muito mais vantagem para o autista viver em seu próprio mundo, longe das maldades humanas, das ironias, dos julgamentos e das segundas intenções. Não conseguir expressar de forma verbal o que sente é uma forma de manter-se seguro em seu mundo sem ter que fazer parte desse universo estranho dos neuro típicos.
Por isso é importante estar atento a cada possibilidade dessa perda de conexão, pois quando o autista cria confiança e sai do seu mundo para o dos outros é um risco que se corre de perder o contato com ele caso haja a quebra desta confiança. Quando falamos de autistas na fase da infância, aí é mais delicado ainda, porque a dificuldade de expressar os sentimentos pode lhes colocar em situação de defesa e fazer com que eles fiquem isolados em seus próprios pensamentos.

Não me canso de dizer: Desconfie do “autista adulto” ou que se diz autista por conveniência, que fala que não sabe o que é cada sentimento. O autista pode não saber expressar o que sente, mas a sensibilidade é tão aguçada que são capazes até mesmo de prever atitudes dependendo da intenção das pessoas. Obviamente estou falando aqui para pessoas que sabem ler as entrelinhas, as reações inesperadas de seus filhos que, do nada começam a chorar ou se recusam a fazer algo. Olhe em volta, veja se não tem uma pessoa desagradável, falsa ou com olhar crítico, tudo é sentido. Não somente pelos autistas leves, na verdade essa regra vale ainda mais para os severos que, do nada começam a gritar e se debater, tudo o que mais precisam é de silêncio e o contato com a pessoa que mais confiam. Nunca pergunte porque ele está assim, provavelmente ele sabe exatamente o que está se passando, mas não consegue dizer. Já se imaginou assim?

O que posso lhe dizer é que tudo é proveitoso na vida do autista desde que você esteja junto, sentindo, vivenciando, deixando de lado outras coisas também importantes, para estar com seu filho, descobrindo, sorrindo e aproveitando cada segundo.

Mas é complicado. O marido não ajuda? O parente só critica? Bom, não espere que te achem uma heroína ou super mãe, apenas delegue funções, independentemente se isso for bem recebido por quem convive com você ou não. Peça ajuda para alguém para colocar as roupas na máquina de lavar, faça uma lista do supermercado e peça para irem no seu lugar, diga não aos pedidos absurdos de favores de pessoas que não tem filho autista, faça uma agenda para você, se organize, repita no jantar a comida servida no almoço, congele comida para a semana inteira se você achar mais fácil, seja como for, você irá achar tempo para brincar, para estar com seu filho, mesmo que isso represente deixar sua casa para depois, seus e-mails, mensagens e encontros para outro dia, pode acontecer de você perder um prazo, uma venda ou seja lá o que for que você perca dependendo da área que você trabalha...

Eu posso afirmar com toda a certeza do mundo que não há nada mais incrível para o autista do que ter com ele uma pessoa presente de corpo, mente, alma e coração – com ou sem spinner...

Beijo muito carinhoso, fiquem com Deus
Mamãe – Kenya Diehl
Coordenadora MOAB/POA
Movimento Orgulho Autista Brasil
facebook/kenyatldiehl
www.kenyadiehl.wixsite.com/olhandonosolhos