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sábado, 25 de junho de 2016

O autista e os medos


Boa parte dos autistas não sentem medo. Isso coloca em risco sua  saúde e também sua própria vida. As mães em geral precisam ter cuidados redobrados, montar estratégias e contar com apoio de outras pessoas, porque realmente é perigoso descuidar de uma criança livre de medos. Não é o caso do Guilherme, ele é bem cauteloso e por vezes sente medo demais.

Autistas tem os sentidos todos aguçados, ouvem mais alto, sentem mais profundamente os toques, os cheiros, as luzes e cores e tudo o mais que os cercam. Posso definir que meu filho tem uma percepção aguçada de mundo. Quando algo o assusta é preciso muita calma para lhe ajudar e passar confiança.

De nada adianta estarmos diante de uma criança autista apavorada, nitidamente com medo e ficarmos falando que não é nada, que pode ficar tranquilo porque iremos protege-lo. O autista, mesmo o que consegue se comunicar através da fala, tem muita dificuldade de expressar seus sentimentos e também de compreender as frases que falamos sem clareza. Eles precisam ter certeza de que entendemos o que está se passando com eles e para isso precisamos afirmar que sabemos o motivo da crise, com todas as letras, sendo ele verbal ou não.

Certa vez estava dando um temporal, muitos trovões, um barulho horrível, Guilherme começou a gritar, a essa altura já sabia dizer que sentia medo, seus olhos demonstravam pavor. Corri para o lado dele, segurei seu rosto com minhas mãos, nessa hora faltou luz, eu o segurei bem forte, o mais forte que pude e lhe falei que aqueles barulhos eram horrorosos, que parecia que o mundo iria acabar, que parecia que nossa casa iria desabar, que eu compreendia seu medo, mas que eu também tinha certeza que somente o barulho era assustador e que nada de ruim iria acontecer, poderíamos ficar abraçados até seu medo passar... para minha surpresa após chorar um tempo, ele me pegou pela mão, me puxou para a janela e perguntou se eu podia lhe mostrar a rua. Havíamos superado o medo do temporal e isso era incrível. Muitas vezes é mais simples do que parece, eles apenas precisam de compreensão. De nada adianta dizermos que não é nada, se para eles aquilo é o fim do mundo, um medo terrível. Se dissermos que não é nada não estaremos lhes inspirando confiança...

Podemos sentir medo e sentiremos, o medo faz parte da condição humana. Chega um ponto da vida em que ele é inevitável, mas de certa forma nos protege, nos faz pensar, refletir e tomar decisões sem impulso. É como um freio, um lembrete de que todos podemos errar, mas se pensarmos um pouco teremos a chance de sempre fazer o melhor.

E é justamente o medo que nos diferencia dos insetos que buscam a luz. Conseguimos ponderar, preservar nossa vida e a dos demais. É só não deixarmos que ele nos paralise e então teremos mais chance de superar e identificar o que é perigoso e o que não é.

Mas o que fazer se o filho da gente entra em crise na rua por causa de um medo que não conseguimos identificar? Ele grita, chora, se debate, todos olham para nós como se não houvesse nada mais em volta. Na minha visão de mãe só temos uma saída, que é esquecer o mundo que nos cerca, nos concentrar em nosso filho e lhe passar tranquilidade. Não descobri até hoje remédio melhor do que esse, quando não consigo identificar o que é sempre lhe digo que sei que algo muito ruim o incomoda, mas que farei de tudo para descobrir e estarei ao seu lado. Depois, trabalhamos cada medo para que um dia ele não seja totalmente dependente de mim.


Certa vez tive uma reunião na escola da qual saí muito abalada, eu fazia de tudo para que entendessem que meu filho é sensível, que precisa de atenção especial, para que não haja prejuízo ainda maior em seu desenvolvimento. Expliquei que de umas semanas para cá ele tem sentido medo de fazer xixi porque em algum momento alguém que o auxiliou lhe tocou com as mãos geladas e isso fez com que ele pegasse muito medo de ir ao banheiro. Para minha surpresa a resposta que tive é que eu deveria lhe encaminhar para uma psicóloga porque esse medo excessivo dele não era normal. Ora, é óbvio que não é normal, ele tem todos os sentidos a flor da pele, ele é autista. E quer saber? Fiquei pensando depois, afinal, o que é ser normal? Não existe um padrão único de normalidade, cada vez mais temos um mundo com diversidades, creio que ainda o que falta é compreensão e amor ao próximo.

Não senti raiva, entendo que aquelas pessoas não convivem conosco, não sabem, de fato, o que é lutar dia após dia pelo desenvolvimento do filho, sempre na fé de que ele será feliz. Minha missão é divulgar, esclarecer. O que os autistas sentem é real, é intenso e merece todo cuidado e respeito que pudermos lhes oferecer. Na verdade acredito que filhos autistas vem para esse mundo com o propósito de alertar as pessoas sobre como elas se perdem em seu próprio ser, sem se colocar no lugar no outro. Eles estão aí para nos mostrar que o mundo pode ser muito melhor, desde que estejamos dispostos a doar mais e receber menos. Essa é a lei da vida, um ciclo perfeito que precisa ser cumprido para que tenhamos uma existência mais leve.

Na dúvida se coloque no lugar do autista, se imagine com todos os sentidos mais do que aflorados, sem conseguir se expressar, muitas vezes sem conseguir sequer falar, tenho certeza de que você encontrará a resposta... E para aqueles que discordam, tenham a certeza de que não se trata de uma simples sensibilidade, mas sim a sensibilidade que irá determinar uma vida de compreensão ou de exclusão. Depende da maneira como iremos superar cada obstáculo junto com eles.

Tenha fé, o mundo deverá ficar cada vez mais preparado para nossos filhos especiais, precisamos divulgar, lutar pelos nossos direitos. E se não há colaboração, nos multiplicamos em dez se for necessário para proteger e dar conforto aos nossos filhos.

Eu sinto medo, meu filho sente medo. E vc? Consegue dizer para seu filho autista que você também sente medo, mas que vocês podem superar isso juntos?

A felicidade deve ser colhida e plantada a cada instante. Aproveite cada segundo.

Grande beijo, cheio de luz e paz. Mamãe



facebook/kenyatldiehl.com




3 comentários:

  1. Adorei essa matéria...também fui presenteada com um anjo maravilhoso que se chama Bernardo. Desde então, aprendi o verdadeiro valor e sentido da vida. Amoooo esse meu autista, com muito orgulho!!!!!

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  2. obrigada por compartilhar sua experiencia.
    Tenho um sobrinho autista. E cada compartilhamento é uma ajuda, para ajuda-lo a viver melhor.
    bjs

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    1. Obrigada querida, seu sobrinho tem muita sorte em ter você. Bjs de luz

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