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quarta-feira, 29 de junho de 2016

O autista na escola


A tarefa de decidir o momento certo para levar o filho a escola é por si só muito difícil. Quando nos tornamos mães desenvolvemos um instinto de proteção natural que nos coloca em sentimentos muito opostos. Se por um lado precisamos permitir a socialização de nossos filhos, por outro temos a certeza de que ninguém irá cuidar deles como nós. E não vai mesmo! Agora multiplique essa situação para as mães que tem filhos autistas.

O autismo é complicado mesmo nos graus mais leves porque ele mexe com os sentimentos e a comunicação da criança. Os barulhos incomodam, estar fora de casa bagunça as ideias deles, as crianças não conseguem interagir com eles da forma ideal e, via de regra, não temos profissionais preparados para lidar com as particularidades do autismo. Mas encontrar um bom lugar é fundamental para o desenvolvimento da criança, tanto físico como emocional.

Existem escolas que tem o que chamo de “aceitação”, porque não incluem de fato a criança. Existem escolas que ainda não aceitam e também há as que tem a melhor das intenções, mas infelizmente mais prejudicam do que ajudam. Por fim, existe a escola que, depois de muita busca, é a mais apropriada para cuidar daquele ser que é inteligente, forte e diferente - nosso filho autista.

Guilherme experimentou sua vida escolar pela primeira vez aos três anos, logo que recebemos o diagnóstico, com indicação de uma das terapeutas para que ele conhecesse novos ambientes e observasse outras crianças. Era uma escola do bairro, simples, porém aconchegante. Inicialmente ele ficou muito empolgado, ia feliz, se divertia com as novidades. Com o passar do tempo percebi meu filho triste, chorão e com medo de sair de casa. Obviamente ele ainda não falava, mas minha comunicação com ele sempre foi especial. Um dia percebi duas marcas roxas, uma em cada coxa, na parte interna, parecia marcas de dedos... Tomei um susto, afinal, como ele se machucaria naquela parte do corpo? Na escola ninguém soube me dizer.

Gui tinha um vocabulário extenso, porém de palavras soltas, ele registrava o que a gente falava e copiava, mas não conseguia juntar nem ao menos duas palavras. Vi no meu filho um olhar triste, pesado, mas na escola me diziam que essa tristeza fazia parte do fato de ele estar distante de mim. Só que em uma manhã ele abriu a gaveta de talheres na cozinha, ele nunca foi de mexer aonde não podia. Nesse momento eu o chamei a atenção dizendo que aquilo era perigoso, então ele olhou bem dentro dos meus olhos e gritou: “seu doente”. Infelizmente essas foram as duas primeiras palavras que ele juntou. Imediatamente após gritar me abraçou e chorou alto, soluçava de tanto chorar, eu ajoelhada na frente dele igualmente chorando alto, só pude lhe pedir perdão. O recado estava dado, ele sofria agressões na escola...

No mesmo dia eu fui falar com a diretora, que em seguida chamou a professora. Eu chorava muito e então quando a vi perguntei diretamente porque ela havia agredido meu filho, eu tinha certeza. Ela me respondeu que não era nada pessoal, que sempre havia gostado de crianças, mas que a vó dela estava no hospital a beira da morte e então por isso estava emocionalmente a abalada e sem condições de lidar com as crianças. Eu apenas ordenei que ela sumisse da minha frente enquanto meu marido me segurava... Por mais calma que eu fosse havia o grande risco de eu cometer uma loucura e partir para cima dela.

Quando cheguei em casa eu conversei com meu filho, disse para ele que eu sabia o que havia acontecido, mas que ela não estava com raiva dele. Ela apenas era ruim, que na vida poderíamos encontrar pessoas assim em todos os lugares, mas que em nossos corações não deveríamos guardar sentimentos ruins, mas sim levantar a cabeça e reagir. Era hora de superar o trauma. Graças a Deus ele entendeu. Passamos alguns meses em casa e tomamos algumas aulas de musica para passar a dor que atingia mais a mim do que a ele próprio.

Depois disso tivemos altos e baixos em mais duas escolas e tivemos que passar mais alguns meses em casa. Na minha mente, se era para ele estar na escola teria que ser em um ambiente que lhe ajudasse e não que lhe gerasse traumas ou mesmo que ficasse ali, sem fazer nada apenas sendo aceito.

Estive em dez escolas procurando vaga, fui em muitas reuniões, presenciei as situações mais estranhas que se pode imaginar e então na décima escola encontrei o que ele precisava naquele momento. Uma vaga de inclusão de verdade, com uma auxiliar só para ele. Se adaptou facilmente e ficou lá por dois anos. Seguidamente trocava a auxiliar, pois são estagiárias, isso contribuiu para que ele não conseguisse pegar confiança na escola.

É claro que as diferenças existem, chegamos a enfrentar situações de preconceito por parte de alguns pais e crianças também, mas isso infelizmente é uma realidade na vida dos autistas que aos poucos acredito que vamos conseguir diminuir mais e mais. De outro lado tivemos profissionais excelentes, Gui foi amado desde a portaria até a lanchonete, pessoas que nada tinham a ver com ele, como a tia do escolar que amou ele e não passav por nós sem dar um beijo carinhoso. 
É importante estar atento aos detalhes, meu filho dificilmente se desorganiza, mas ele precisa ter suas necessidades respeitadas. Apresentações e festas em geral ele nunca quer participar, tem medo de errar, tem medo do barulho, da multidão e das luzes. Ele participava de todos os ensaios, mas no dia ele não ia, eu sempre respeitei. Porque prefiro meu filho em paz do que com meia dúzia de fotos que não irão transmitir a realidade. A cada evento comemorativo combinávamos de tentar, mas ele ainda não estava preparado para isso e eu compreendi.

Aos poucos ele foi aprendendo a pisar na areia, sujar as mãos de tinta, de argila, receber visitas e participar de festas em sala de aula. Foi um aprendizado diário. E uma luta pela conscientização daqueles que nos julgam pelo rótulo do autismo. Gui não é agressivo, não representa perigo de espécie alguma, mas algumas pessoas não olham o lado de que quem está na inclusão e já ouvi pais dizerem que seus filhos iriam desaprender por ter um autista em sala de aula.



Procurar escola para vaga de inclusão é desgastante, temos que estar atentos aos sinais que nossos filhos nos dão. Podemos perceber se estão felizes ou com medo. Não devemos hesitar em mudar se notarmos que o prejuízo é maior que o benefício. Coisas simples como tocar a água gelada depois de ir ao banheiro ou ficar sozinho na pracinha sem conseguir falar podem gerar um bloqueio muito grande no emocional deles.

Não existe lugar perfeito e não é missão da escola educar no lugar dos pais. É um trabalho feito em conjunto entre escola e família e é construído dia após dia. Se o nosso filho autista não tiver alguém atento lutando pelo seu desenvolvimento e efetiva inclusão, temos o risco de ter uma criança perdida, com medo e passeando pelos corredores da escola sem sentir o prazer de viver. São necessárias muita conversa e parceria para que o objetivo seja atingido, que é o desenvolvimento e a alegria de estar lá e fazer parte de um grupo. Para isso precisamos da dedicação, compreensão e conscientização por parte de todos.

Jamais devemos cair no erro de querer cobrar do autista um comportamento que não condiz com sua personalidade, a inclusão se dá pelo diferente e só concretizamos a inclusão quando conseguimos desenvolver a criança respeitando suas particularidades, medos e sonhos. No fundo somos todos diferentes, mas o autista é sincero, ama demais, sente demais, é tudo muito intenso e sua visão de mundo é incrível para quem se dispõe a conhecer. Gui é ingênuo, não vê maldades, só gosta de conversar sobre o que faz parte do mundo dele. Enquanto os meninos correm depressa, ele faz bolos de areia e fogueira de gravetos. É uma forma de ver a vida. Ele deve ser estimulado a interagir, fazer parte do mundo dos demais, mas é justo e gratificante quando vemos adultos e crianças também fazendo parte do mundo dele e viajando em suas histórias, é uma troca, uma incrível troca que traz os mais belos frutos que uma mãe pode sonhar.

Respeitar as diferenças é entender que Deus fez todos os seus filhos perfeitos e que podemos viver em paz, cada um dando seu melhor.

Lutar pela inclusão é acreditar no futuro, agora. Toda mãe sonha em ver o filho realizado e feliz!

Eu continuo sonhando e não vou deixar de lutar até encontrar o lugar certo.



Grande beijo, cheio de luz e paz. Mamãe.

kenyadiehl@gmail.com

facebook/kenyatldiehl.com




5 comentários:

  1. Lendo suas palavras parecem ter sido escritas por mim,porque já me vi e me vejo na mesma situação. Obrigado por falar, bjks

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    1. Obrigada querida, somos guerreiras em lutas muito parecidas. Beijos de luz

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  2. Meu filho frequenta escola infantil regular. Vejo que é feliz nessa escola. As professoras o tratam com muito carinho e dedicação. Assim como os colegas cuidam dele e o auxiliam no que ele precisa. Mas meu coração se enche de angústia em pensar que quando ele entrar para o ensino fundamental tudo irá mudar. A dificuldade de conseguir uma escola realmente inclusiva é uma das tarefas mais árduas de uma mãe.

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