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sábado, 7 de janeiro de 2017

Autistas são geniais?

Muito se ouve falar que ter um filho autista é o fim do mundo, o fim da vida, o luto eterno ou exatamente o oposto. Dizem por aí que autistas são pequenos gênios, dotados de capacidades exclusivas, que não sentem dor, são de uma inteligência acima da média, falam como adultos quando ainda são crianças e quando são adultos representam verdadeiros artistas de sua própria história.

Mas calma. Não é bem assim. A vida autista vai muito além do que se fala, do que se divulga. Fui diagnosticada autista ainda na infância, em meio à pobreza, à precariedade. Na escola chamaram minha mãe, ela me trocou de escola e chamaram de novo, ela me levou ao médico que confirmou o diagnóstico, então me trocou pela segunda vez. Eu vivia em meu mundo e gostava dele, não me interessava nem um pouco fazer parte do mundo dos demais. Além do meu mundo que todos insistiam em dizer que não havia imaginação mas que era altamente imaginativo eu me interessava apenas pela minha mãe, o cheiro dela me fascinava, a voz dela tinha a frequência perfeita, quando ela saía para trabalhar eu entrava no seu guarda-roupas e ficava em meio às suas camisolas sentido seu perfume, isso é sério, literalmente, tanto que ela teve que largar o emprego por volta dos meus seis anos... minha depressão era tão profunda que eu não falava, não me alimentava, vomitava, chorava muito e tinha o hábito de enrolar fios de cabelos entre os dedos até cortar. Minha mãe não teve escolha. Parou de trabalhar para cuidar de mim. Eu fiquei feliz, na minha cabeça não existiria felicidade maior para minha mãe do que ficar comigo.

Acontece que existe uma fantasia muito grande de que o autista leve terá inteligência acima da média, aprenderá a ler e escrever sozinho, terá também domínio sobre determinados assuntos ou alguns dons específicos ou alguns dons em que ninguém será melhor do que eles... Não raramente quando Gui, meu filho, se apresenta autista, as pessoas perguntam qual o dom dele e eu prontamente respondo que o dom dele é ser feliz. Eu nunca forcei a barra com o Guilherme para ele ter um dom, um direcionamento ou qualquer coisa parecida, se fosse do temperamento dele tudo bem, mas nunca vindo de mim, isso seria cruel ao meu ver.

A grande verdade é que a maioria dos autistas tiveram algum tipo de intercorrência como problemas neurológicos, epilepsia, meningite, prematuridade, parto sofrido ou prematuro entre tantas outras coisas que antecederam o autismo. E quando não tem esses fatores uma carga genética pode acompanhar o transtorno e a genialidade é a exceção. Pouquíssimos casos de autismo leve têm algum tipo de dom muito genial. Os demais têm grande dificuldade de aprendizado, precisam de muito estímulo para aprender. Eu era assim, eu era a criança esquisita, que não entendia as coisas, que não aprendia, que era fascinada por dias que faltassem luz só para acender velas, mas que ficava triste quando a luz voltava, que custava muito a aprender algo, mas que quando aprendia alguma coisa nunca mais esquecia. Este é o retrato do meu filho hoje. Guilherme tem a minha forma, às vezes tenho a impressão de que Deus utilizou o mesmo molde para fazer ele.

Ao passo que não aprendemos aquilo que não é de nosso interesse, quando temos o hiperfoco, o que é do nosso gosto, aí sim podemos ser muito bons naquilo, mas veja bem. O filho autista geralmente tem um bom atendimento psicológico, terapêutico e – não digo familiar – mas, via de regra, da mãe mais do que o habitual para uma criança e acaba por se desenvolver além da conta. Por outro lado, se você for analisar crianças sem diagnóstico nenhum são tranquilamente “criadas soltas” em rotinas frenéticas da modernidade e acabam por sofrer muito mais as consequências das doenças emocionais e do abandono de pais viciados em trabalho e status social.

Meu filho é do tipo inteligente, que aprende sozinho muitas coisas. Pega um aplicativo de tablet ou de smartv e faz milagres, mas tem sérias dificuldades no aprendizado. Às vezes estamos falando, explicando as coisas e ele realmente não consegue prender atenção, não exatamente que não tenha capacidade, mas ele simplesmente não conecta as informações, até que desiste. Então eu encontro uma forma diferente de ensinar e ele com muito esforço acaba aprendendo levando o dobro do tempo esperado.

Quando eu era criança, nos jogos com bola eu sempre era a gandula, nos jogos de cartas minha mãe tinha que estar segurando minhas mãos junto com as cartas. Não raro eu batia “pife” dizendo que havia ganhado, quando na verdade apenas tinha combinado cores. E o coro de vaias vinha alto...

O que me agradava mesmo era estar sozinha, pegava as plantas de apartamento de jornais do “Estadão”, aqueles que colocam à venda, pegava meia dúzia de grãos de feijão e montava a família perfeita. Aquele era meu mundo. Aquilo me motivava, me transportava para o mundo ideal, onde eu fantasiava a paz, um local onde todos colaboravam, viviam felizes, dormiam e acordavam cada um em seus quartos, eu chegava a fazer vassouras de papel para varrer a planta da casa que para mim era real, e acredite, eu ficava muito brava quando tentavam me tirar daquilo...

Hoje vejo Gui construindo camionetes de almofadas, dirigindo motos de brinquedo com capacetes de verdade me pedindo o endereço do hotel e a lista do supermercado e quase entro na mente dele conseguindo imaginar seu mundo ideal.

Quando os pais recebem o diagnóstico do autismo não raro fantasiam sobre ter pequenos gênios em casa, mas isso é exceção. Tenho uma amiga que tem um filho com o mesmo nome do meu, Guilherme. Ele tem transtorno de desenvolvimento e me emocionei com o relato dessa mãe, que me enviou esse texto em um serviço de troca de mensagens em um momento de troca enquanto falávamos sobre sermos sinceras com eles todos os dias:

"Meu filho sempre participou de todas as etapas do seu diagnóstico. Eu sempre falei abertamente com ele sobre todos os resultados. Sempre falei sobre o que seriam suas limitações e o que ele faria igual as outras pessoas. Tudo o que eu estudo sobre as limitações e sobre as capacidades geniais dele, eu conto a ele. Fui criticada por isso, mas, a sensibilidade do meu filho não permite que eu esconda algo dele. Ele é extremamente inteligente e conhece sua mãe mais do que ninguém. Sabe tudo o que sinto, só em olhar pra mim.  O coração puro dele faz eu ver o mundo com outros olhos. Eu costumo dizer a ele: "Guilherme, me ajuda! Você que tem o pensamento concreto, me diz como eu faria isso? Ele sempre tem respostas geniais. Eu fico impressionada com a visão espacial dele! Ele pega uma caixa de lego, cheia de micro peças. Esparrama todas sobre sua cama e...5 minutos depois, está montado perfeitamente! Ele pega 10 legos diferentes, umas peças de cada e faz diversas coisas diferentes, nada a ver com o manual. Ele cria mesmo! Eu admiro muito meu Mini Einstein!"
Cláudia Fedrizzi

É lindo, emocionante e motivador. Apesar dele ter muitas outras dificuldades,  o olhar cuidadoso, amoroso e dedicado dessa mãe certamente desenvolve neste filho uma capacidade latente que está guardada no mais profundo íntimo do seu ser.

Tudo o que o autista passa todos os dias é uma grande luta, eu sempre quis ser incluída, mas do meu jeito, na minha "esquisitisse", sinceramente eu via todo mundo meio igual e não via a menor graça nisso fora o fato de que os familiares não riam deles. Eu era magra, subnutrida, desprovida de inteligência, tinha problema para comer, para urinar, para falar, para aprender, tinha os dentes enormes e a boca pequena, amava usar casacos mesmo em dias quentes. Nunca em toda minha vida encontrei alguém que me entendesse completamente. Sofri durante a minha vida inteira, mas algo dentro de mim brilhava tão bom, tão real. Eu sabia que no fundo eu deveria ser eu, e fui. 

Nunca terminei uma faculdade, apesar de ter feito uma até o sétimo semestre e outra até o quarto semestre. Admiro muito quem consegue ir até o fim e se formar. Meu grande sonho de vida é ainda um dia me formar e ter uma profissão. Tenho fé, tenho esperança, mas me considero uma pessoa vitoriosa por ter chegado até aqui.

Independentemente do nível de coeficiente de inteligência seu ou do seu filho, invista em amor. O mais emocionante de uma viagem está no caminho, nas belezas de todas as descobertas dos fascínios que vemos na estrada. A chegada é apenas a “cereja do bolo”, uma mera recompensa de todo o esforço de quem já foi forte o suficiente para receber a recompensa de ter chegado ao seu destino e ainda assim querer mais. Porque quanto mais longe se vai, mais longe se quer ir.

Beijos de luz e paz. Mamãe. 

kenyadiehl@gmail.com

facebook/kenyatldiehl

Twitter: @KenyaDiehl

http://kenyadiehl.wixsite.com/olhandonosolhos

12 comentários:

  1. Guerreira, parabéns por estar aqui, vencedora , nos emociona com tua história, também tive uma infância muito criativa e "imaginativa", amava estar ao lado de mamãe, obrigado por compartilhar de sua história, porque ela é também história de Guilherme,grande abraço, sempre em frente!

    Luís de Oliveira.

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    1. Sim meu amigo me lembro de parte de sua história super emocionante. Obrigada pela linda mensagem. Abraço fraterno.

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  2. Muito lindo e com conteúdo seu texto. Parabéns, Acompanho desde o meio de 2016 quando tive o diagnostico do Murilo, então com 2 anos, de que era diferente na escolinha.
    Hj ainda não fala, mas tem tanto amor e carinho que transborda. Aprendemos a lidar com ele, é fascinado em números e letras, com 2 anos e meio sabe todos numeros de 1 a 20. e suas ordens. Alguns animais e a cada dia nos surpreende com um aprendizado, agora tá aprendendo o Abcdário. reconhece sons e letras , mas não fala.
    Obrigado por tornar público sua luta díaria
    Abraços
    Thiago Galhardo

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    1. Que legal. Obrigada pelo carinho, pela mensagem e por dividir comigo um pouquinho de sua história. Vamos aprendendo juntos e buscando o equilíbrio, a paz e uma vida cheia de alegria com nossos filhos amados. Grande abraço.

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  3. Emocionante, faz a gente mergulhar dentro do nosso niverso, e descobrir perolas dentro de uma ostra, um tesouro, um segredo, que nao podemos partilhar, mas nos faz tao bem...

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  4. Não só lindo, como importante tentar interagir com nossos filhos de uma maneira simples, como faríamos com qualquer pessoa. Muitas vezes tento formas mirabolantes de me comunicar com meu Saulinho, mas basta eu dizer:" Sau, vem cá, dá pra mamãe, deixa eu ver" aí ele vem e me dá o que está nas mãos, bem tranquilo. Em outras ocasiões, ele não me responde e eu me desespero, por que são coisas que principalmente podem colocá-lo em perigo. Quero ensiná-lo a se defender, mas como orientar de maneira coesa, alguém que aparentemente não tem entendimento das funções de quase tudo? Leio posts assim e me sinto esperançada. Significa que o impossível às vezes está a um passo de mais uma tentativa. Obrigada.

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    1. Está muito mais próximo do que pensamos. Parabéns pelo seu empenho, por ser uma mãe tão dedicada e por fazer parte do mundo do seu filho. Os detalhes se ajeitam com o tempo. Beijo muito carinhoso.

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  5. Moça,
    li seu texto com lágrimas nos olhos e fui ainda mais encorajada em dedicar meus estudos e esforços para favorecer e incentivar pessoas tão únicas como vocês. Muito obrigada por partilhar isso e de maneira tão incrível e amável, muito obrigada.

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    1. Ah que linda. Muito obrigada. Fiquei muito feliz com a sua mensagem. Obrigada pelo carinho. Grande beijo.

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  6. Querida!
    Teu texto está ótimo claro e emocionante. Tens minha admiração, respeito e meu amor!

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    1. Sem palavras. Obrigada pelo carinho. Simplesmente amo vc demais. Grande beijo

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