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domingo, 19 de fevereiro de 2017

O que muda em nossas vidas ao descobrirmos que temos um filho autista

O autismo é uma característica que faz com que a vida de todos os envolvidos com o diagnóstico  mude radicalmente. Geralmente ele vem sozinho, sem nenhuma motivação ou razão aparente. Você planejou um filho, sonhou em ter ele e do nada sua vida mudou, o autismo entrou na sua vida... Sem pedir licença, sem formalidades, cheio de estereotipias, sem regras, sem diferenciar pessoas, posições sociais, locais de convivência ou tradições familiares... Não diferencia posição geográfica, crenças religiosas, classe social ou etnia. O autismo é assim, ele te escolhe e vem, independentemente de grau, ele entra na sua vida e muda tudo, é capaz de construir ou destruir. Não importa se você tem um olhar positivo ou negativo sobre isso, serão dias de luta e gloria e também dias de dor e sofrimento. Uma montanha russa emocional, bênçãos e sofrimentos, um dia de cada vez, não existe fórmula mágica.

No início aquela dúvida básica, devo colocar na escolinha para socializar ou não? Melhor esperar ele começar a falar? Será que ele vai falar? Será que ele será um gênio como Einstein? São tantas perguntas... Qual tipo de intervenção, método, terapias, horários, deixo ele fazer o que quer, ficar no seu mundo? Ou tento trazer ele para o meu? Será que um irmãozinho não ajudaria? Eu deveria engravidar antes de ele crescer... E os parentes? Conto ou deixo isso passar? Afinal, isso um dia vai passar, ele parece normal... Quanto sofrimento, quantas noites sem dormir...

Nunca me esqueço do dia em que fomos a um aniversário do menino que era filho dos padrinhos do meu filho, aniversário de dois anos. Eles nasceram com 14 dias de diferença, mas a diferença de comportamento a esta altura era muito notável. Ouvi duas pessoas comentando sobre o interesse restrito do Guilherme em girar as hélices de um helicóptero, eu estava atrás delas, não viram que eu estava ali e ficaram falando que certamente meu filho teria problemas porque não brincava como as outras crianças e que ele era muito estranho, só queria girar coisas e tirar os balões da decoração. Elas levaram um susto quando viram que eu estava bem atrás, tentaram me explicar, mas a essa altura eu já estava brincando com meu filho sem pensar no que pensavam sobre nós. (faz cerca de quatro anos que Gui não vê os padrinhos, sempre há uma boa razão para não conseguirem visitar ou receber meu filho).

Bem, o bem da verdade é que se você tem amor no coração e percebe que seu filho tem algum tipo de limitação você passa a amá-lo ainda mais, mesmo sabendo que terá um caminho longo e sofrido pela frente. Mas precisa de muita paciência, estudo, paz, desprendimento, libertação para ir atrás de uma vida digna e cheia de conquistas e momentos que valham a pena serem guardados na memória.

Até atingir o ponto de equilíbrio nos deparamos com pessoas insensíveis, por vezes familiares preconceituosos, que nos classificam pelo que fomos e não pelo que somos. Colocamos à prova toda nossa luta, nossa dor, nossa garra, vontade de vencer. E quer saber a verdade? Metade disso não vem de você, vem de pessoas preconceituosas que te julgam pelo que enxergam na sua aparência e modo de viver sem considerar que antes de tudo você foi um alguém com uma história de vida construída com muita luta e motivações para ser quem você é.

E aí você se vê com um filho autista, que sente dor demais, que ouve sons demais, que não aguenta esperar, que chora demais, que não sabe a hora de falar se é que ele fala, com quem ele fala, que não sabe em quem confiar, que é inocente para tudo, que precisa de tradução para todos os tipos de sentimentos, que tem medo de comer, tem medo de dormir, tem medo de sair, de curtir a vida, de visitar as pessoas, de receber visitas, de ir para a escola... De repente você se pega com os mesmos medos que ele, Será eu autista também? Meu Deus, eu sempre fui assim...

O que muda afinal? O que muda é que você não tem um deficiente físico, mas uma pessoa portadora de deficiência em casa, deficiência é deficiência, uma visível outra não!  Sob os teus cuidados, precisará de toda a sua força, se descubra autista você ou não. O autismo pode ser genético, muitos pais se descobrem autistas depois dos filhos, mas a verdade é que ao ter um filho autista a nossa vida se entrega a ele.

Não podemos mais viver sem nos programar. Se for comprar uma bicicleta para ele você tem que avisar antes, autistas não gostam de surpresas! Se você vai sair de viagem, tem que mostrar fotos de todos os lugares com antecedência para não ter problemas, se vai receber visitas deve avisar quem vem e quanto tempo deve demorar, se vai pedir uma pizza ou fazer um churrasco a mesma coisa, avisar o motivo, o tempo de duração e garantir que tudo está em sua mais perfeita segurança. Qualquer coisinha, por mínima que seja pode abalar o emocional de um autista.

Mesmo que seu filho não fale, ele ouve, lhe avise sobre o que vai acontecer, isso evita a ansiedade, o stress e as crises. Não raro os médicos receitam medicação controlada. Tanto eu como meu filho tomamos e é a melhor coisa para nós, mantém nossas vidas em ordem, mas não faz com que o mundo nos compreenda mais.

Então, esteja preparado, o mundo anda muito cruel sim, as pessoas dão suas opiniões sem pensar no quanto você pode sofrer com isso. Você vai lutar por uma vaga de inclusão na escola, vai buscar os melhores terapeutas do mundo para seu filho, vai rodar kms para conseguir um atendimento humano, vai abrir mão de “amizades” para ter AMIZADES, vai saber o que é chorar de verdade, o que é uma conquista verdadeira, o que é o sabor da vitória, por consequência irá conhecer outras tantas pessoas que lutam pelas mais diversas síndromes... E verá o que é realmente uma amizade.
Sabe o que é mais bonito disso tudo? Somos todos perfeitos em nossas imperfeições. A  vida muda dia após dia e tudo é aprendizado.

A grande verdade é que o que muda mesmo é que você passa a viver uma vida de verdade, sem máscaras. Muitos irão te criticar. Se você não for equilibrado o suficiente a ponto de defender o seu filho de todas as possíveis ameaças certamente dirão que você é louco, que você se perdeu, não importa... O mais importante é manter a firme decisão de defender seu filho de protocolos que seguem padrões sociais engessados e que fazem com nossos filhos sofram. Nunca tenha medo de lutar pelo seu filho. Não tenha medo de levantar uma bandeira sozinho... Todas as manhãs, quando o dia começa a clarear o primeiro pássaro pia para que os demais o sigam. Mantenha a fé, o amor e a convicção de que na vida quem vence não é aquele que tem mais títulos, mas aquele que foi mais audacioso. Também não é de quem lutou necessariamente por um espaço, mas sim por uma luta real de conscientização, de desmistificação de um nome que te classifica em graus, assim como em várias outras síndromes, sem antes lembrar que somos todos humanos, dividindo o mesmo espaço.

O autismo muda tudo, sua vida passa a precisar de uma programação, 24 hrs por dia, para tudo o que for fazer, cada lugar que você for visitar, tudo o que for ensinar, não importa o grau. Mas a vitória será em igual proporção.

Cada vitória do seu filho será comemorada. E não me refiro a medalhas no campeonato da escola ou na aula de inglês. Falo sobre valorizar a vida, sobre conseguir fazer uma compra no supermercado, sobre pedalar a própria bicicleta, a pintar a folha A3 com tinta, comer com garfo e faca. Você, com sua vida frenética se pegou pensado em coisas tão simples?

Deus pensou nisso por você. Eu amo minha vida com o autismo. E você? Consegue enxergar a importância deles no mundo?

Beijos de luz e paz. Mamãe.

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sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

ABA? TEACCH? TO? Afinal o que é isso tudo?

Muito se fala hoje em dia em intervenções, terapias e atendimentos para o desenvolvimento e melhor qualidade de vida do autista. Mas não raro vejo mães e pais perdidos em conceitos e nomes que desconhecem do que se trata, se sentem perdidos ou acham que estão fazendo pouco pelos seus filhos por não poder lhes dar todos os atendimentos disponíveis no mercado atual.



Vale lembrar que cada método tem suas vantagens, alguns com resultados mais rápidos, outros nem tanto. Por outro lado, temos autistas adultos que relatam se sentirem “engessados” pelo processo de aprendizagem que lhes foi imposto em outras fases da vida. É importante sempre levar em conta o temperamento da criança, a real necessidade que ela apresenta de determinadas intervenções e o contexto da família dentro disso tudo.
A maioria dessas intervenções tem alto custo e muitas famílias não podem arcar com as despesas dos atendimentos a curto, médio e longo prazo. A importância de avaliar o início de um atendimento consiste também em ter certeza de conseguir mantê-lo caso a criança se envolva de forma positiva, pois pode bagunçar o emocional deles se cada vez há uma nova tentativa frustrada de terapia.

Todo ser humano é único, uns aprendem mais cedo, outros mais tarde, para o autista a regra não é diferente. A atenção deve ser focada para caso seu filho esteja em sofrimento, sem conseguir se alimentar, sem conseguir se comunicar de nenhuma forma, tendo vários surtos por dia, com dificuldades para dormir e cumprir tarefas básicas. No mais, se solta uma ou duas palavras apenas, em geral  é sinal de que a fala está preservada e com o atendimento adequado há grandes chances de falar. A mesma regra vale para a retirada das fraldas, o medo dos barulhos, a seletividade alimentar. Muitas vezes a maturidade das crianças autistas vem bem mais tarde, acabam tirando as fraldas por volta de cinco ou seis anos de idade, falando por volta de até de oito anos ou, ainda, até mesmo conseguindo vestir as próprias roupas por volta dos dez.

Meu filho falou aos quatro anos e meio, comeu sozinho aos sete, nunca dormiu na casa de um amiguinho, ainda dorme de fralda, teve seletividade alimentar até os sete anos, ainda ficamos no quarto até ele dormir, precisa de ajuda para se vestir, não sabe pular um degrau, mas aprendeu a descer com um pé na frente do outro, o que é uma grande vitória. Atrasou um ano no jardim e com sete anos completos vai entrar no primeiro ano do ensino fundamental, com professora auxiliar e até a hora do recreio apenas. Cada um tem seu tempo e deve ser respeitado para que sintam a segurança de fazer as coisas sem pressa.
Os tratamentos são aliados de uma vida consciente, tranquila e de muita luta. Consistem em auxiliar a pessoa autista a ter uma vida com mais autonomia, minimizar os prejuízos na área de desenvolvimento e dar mais qualidade de vida como um todo. Vou explicar, sem muitos detalhes alguns deles para quem ainda tem dúvidas sobre a diversidade de alternativas que temos hoje em dia à nossa disposição.


TERAPIA ABA – Análise do Comportamento Aplicado (traduzido do inglês)
É uma intervenção feita de maneira estruturada que foca nos comportamentos alvo de intervenção. Em geral envolve comportamentos ligados à linguagem e comportamentos inadequados. O Treino em Tentativas Discretas (DTT) é a principal estratégia de intervenção em ABA. Nas Tarefas de mesa, muitos comportamentos podem ser ensinados: a imitação, a compreensão auditiva, a vocalização, por exemplo. O ensino ocorre através de dicas físicas, visuais, vocais e gestuais, e pela apresentação de itens preferidos pela criança. Por exemplo, ao ensinar algo em que a criança permanece imóvel, pode-se pegar a mão da criança e fazer junto com ela, isso seria uma dica física, logo depois como consequência da imitação feita por ela apresenta-se um “prêmio”, que pode ser algo que ela goste de comer, acesso ao tablet, ou o que ela mais goste.


MÉTODO TEACCH
O método teacch utiliza uma avaliação para determinar os pontos fortes da criança, de maior interesse, bem como suas dificuldades para então montar um programa individualizado. Esse método visa o desenvolvimento da independência e adaptação ao meio. Baseia-se que a linguagem visual é a grande geradora do desenvolvimento, então há o ensino em grande parte através de imagens, cartões, figuras, adesivos, formas, blocos e todo material visual que ajude na compreensão, linguagem, afirmação do bom comportamento e afastamento do comportamento ruim.


PADOVAN
É um método que envolve aplicação de exercícios corporais ativos e passivos que envolvem os movimentos neuro-evolutivos, da caminhada/locomoção, das mãos, da articulação dos movimentos, dos olhos, dos reflexos, etc., que estimulam o Sistema Nervoso Central e Periférico e todos os demais que dependem deles. Esses exercícios estimulam uma reorganização neuro-funcional e um fortalecimento de todo o sistema nervoso da criança autista. A utilização deste método, segundo especialistas, promove o equilíbrio entre todos os sentidos, que no caso dos autistas geralmente funciona em partes. O método Padovan estimula a maturação do sistema nervoso central e recapitula o andar, o falar e o pensar de forma dinâmica.


TERAPIA OCUPACIONAL – TO
Visa estimular as capacidades motoras, cognitivas e perceptivas. É importante principalmente para o desenvolvimento e inserção da pessoa autista no convívio social e no desenvolvimento da autonomia. Trabalha o interesse, a curiosidade, a capacidade de enxergar a si como indivíduo único e capaz. Muito importante a intervenção precoce, podendo ser iniciado antes mesmo do diagnóstico ser confirmado.


FONOAUDIOLOGIA
A fonoaudiologia tem um dos papéis mais importantes na vida do autista. Ela trabalha muito além do desenvolvimento da fala, vai além, desenvolve a comunicação que é muito mais do que falar, as diferenças, o desenvolvimento, o aperfeiçoamento como um todo. Trabalha também a função cognitiva, na linguagem oral e escrita, na deglutição, não raro resolvendo problemas alimentares presentes na vida do autista. Por consequência melhora a autoestima, encoraja as relações sociais, os estudos, as capacidades como um todo.


PSICOPEDAGOGIA
A psicopedagogia entra em uma fase da vida do autista em que ele precisa aprender, de sua forma particular. Promove o entendimento do conteúdo ensinado na escola de forma que o autista compreenda e se desenvolva com segurança emocional. Geralmente são utilizadas instruções diretas, claras e simples, com estímulos visuais para o entendimento de regras e instruções. O psicopedagogo visa a compreensão e a aprendizagem de maneira consistente e agradável.


PSICOMOTRICIDADE
A psicomotricidade permite que o autista possa ter consciência de sua imagem e esquema corporal, bem como da consciência de seu corpo dentro de um ambiente ou de um contexto.  É importante que se trabalhe por meio de estratégias que faça o autista se auto perceber e se inter-relacionar com os limites do meio. Atividades como rolar, pular, tocar, mudando de lado ou de posição fazem com que a criança consiga, aos poucos, perceber os limites entre seu corpo e o ambiente externo.  Deve-se, a todo momento, manter o contato visual e ajudar a seguir comandos com mudança de tonalidade de voz, a fim de desenvolver a capacidade de agir, com o intuito de iniciar e terminar processos. A falta de controle por parte da criança faz com que as formas de se expressar pelo corpo fiquem muito prejudicadas e desorganizadas. O controle de seus próprios movimentos depende de noção espacial, sensibilidade, interação com o meio e com o outro, sendo exatamente a capacidade de integrar estes elementos que define a eficácia de uma ação organizada e também a expressão de um desejo positivo ou negativo durante as seções, o que irá resultar em um tratamento efetivo e de qualidade.


MUSICOTERAPIA
A musicoterapia possibilita ao autista se comunicar através da música, de forma não verbal, seus sentimentos e emoções, com alegria e liberdade. Ele desenvolve a autoestima, aprende a brincar com os instrumentos, tocar, dançar, cantar, ajuda a desenvolver a fala com o tempo, também a ter mais confiança nos sons e nos toques. A musicoterapia utiliza a música em todas as suas formas, de modo que ajuda a diminuir inclusive os movimentos estereotipados e a hiperatividade. Ajuda também na melhora com a interação com o mundo, a satisfação emocional e a facilitação da criatividade, entre outros tantos benefícios.


PSICOTERAPIA
A psicoterapia deve ser guiada por um psicólogo, geralmente é feita com o autista sozinho na sala, mas existem terapeutas que fazem com o acompanhamento da mãe. Os encontros normalmente são semanais, consistem em trabalhar as questões que envolvem os medos, os traumas, os bloqueios emocionais. É observado o comportamento do autista ao brincar, as suas respostas diante das frustrações, dos novos desafios, da interação com a mãe ou com o pai. São estabelecidas metas e trabalhadas em etapas para o desenvolvimento emocional do autista. Muitos outros benefícios são alcançados ao longo do tempo e o leque de abordagem é bem amplo.


EQUOTERAPIA
A terapia com os cavalos trabalha além dos aspectos físicos os emocionais. Ajuda no alinhamento do corpo, no desenvolvimento do caminhar e, quando este já existe, de um andar mais equilibrado, no controle da bexiga e intestinos, coordenação motora como um todo. Trabalha também a autonomia, a coragem, o desenvolvimento da fala, melhora a autoimagem, a autoestima e o controle da impulsividade, entre muitos outros benefícios para a saúde.


HIDROTERAPIA
A hidroterapia ajuda o autista a tonificar o corpo, estimular a digestão, a circulação, o sistema imunológico e alivia a dor. A água ajuda a combater o estresse. Ela age sobre a pele e os músculos, acalma os pulmões, coração, estômago e sistema endócrino estimulando os reflexos nervosos na espinha dorsal. Ela explora a reação do corpo à estímulos quentes e frios, à pressão exercida pela água e à sensação que ela dá. Os nervos carregam impulsos sentidos na pele, para o interior do corpo, que estimulam o sistema imunológico, aumentam a circulação, melhoram a digestão e diminuem a sensação de dor. Para o autista, que tem muita sensibilidade sensorial é um verdadeiro alívio, os momentos na água são prazerosos, relaxantes e ao mesmo tempo estimulantes, pois ao ter o relaxamento da dor e da tensão há o encorajamento por fazer os movimentos que não são possíveis fora da água.


TRATAMENTOS ALTERNATIVOS
Existem muitos tratamentos alternativos hoje em dia, não somente para o autismo, mas para todas as áreas do desenvolvimento humano. Temos os florais, a homeopatia, o reiki, a meditação, acupuntura e massagem terapêutica, entre tantos outros. Deixo aqui um alerta importante sobre o assunto. Muitos desses tratamentos podem até ser prejudiciais, se misturados com a medicação que a criança eventualmente tome. Vale usar o bom senso e uma avaliação criteriosa e principalmente o consentimento do médico que acompanha seu filho.


TRATAMENTO FARMACOLÓGICO
Não existem ainda remédios específicos para tratar ou curar o autismo diretamente. O médico poderá indicar medicamentos para combater sintomas relacionados ao autismo como agressão, hiperatividade, compulsividade e dificuldade para lidar com a frustração, como por exemplo os medicamentos utilizados para esquizofrenia, bipolaridade e hiperatividade e déficit de atenção. A relação entre o benefício e o prejuízo da utilização da medicação deve ser levado em conta e, geralmente, os resultados são excelentes, com grandes progressos. Alguns casos de intoxicação ou de resultados contrários ao esperado podem acontecer, mas se percebidos no início, podem ser substituídos logo no início por outro de melhor eficácia para o caso em particular.


ATENÇÃO REDOBRADA EM CASA
Ter sempre a consciência de que as terapias duram, em média, de 30 a 45 minutos. É fundamental que os pais e familiares envolvidos se inteirem sobre o que está sendo trabalhado com a criança para que seja dada a devida continuidade em casa. Evite locais de muito movimento, barulho e grandes aglomerações, tente sempre que possível olhar nos olhos do seu filho e avisar a ele sobre o que vai acontecer, quanto tempo vai durar e quem estará envolvido na atividade. Televisões com volume muito alto, ambientes bagunçados, com cheiros fortes de produtos de limpeza ou perfumes podem deixar seu filho irritado. Casa muito escura, com janelas predominantemente fechadas também podem dar sensação de sufocamento. Estar sozinho, sem nada para fazer é um passo para se desorganizar, se você precisar fazer comida, lavar louça ou qualquer outra coisa, certifique-se de ter deixado seu filho entretido com alguma atividade, mas nunca longe dos seus olhos. Use um tom de voz baixo, mantenha uma rotina, seja amável, cuide de si mesmo na medida do possível. Converse com amigos ou psicólogos se tiver condições, todo amparo é bem-vindo.


PROFESSORA AUXILIAR NA ESCOLA
Hoje em dia já existe previsão legal para, em casos de comprovada necessidade, ter um auxiliar em sala de aula para o autista. Se você tem o laudo em mãos que comprove o autismo, independente do grau, então você tem o direito de ter uma auxiliar para o seu filho. É muito importante fazer valer esse direito, pois esta pessoa ajudará a aliviar o trabalho da professora titular da turma, que tem muitos alunos para cuidar e principalmente, ajudará seu filho a desenvolver autonomia, autoconfiança e prazer em fazer as atividades, pois terá junto a ele alguém que lhe dará ordens diretas e claras, ajudará na compreensão dos temas propostos, na relação com os amigos, nas saídas de sala de aula quando necessário e um caminhar rumo a independência para, quem sabe um dia, não precisar mais da auxiliar e caminhar sozinho com suas próprias conquistas.


CUIDADOS COM A ALIMENTAÇÃO
Já existem pesquisas muito sérias que comprovam que a alimentação está diretamente ligada à melhora ou piora no quadro do autismo. O intestino deles é sensível, sua circulação sanguínea é acelerada e os problemas digestórios afetam o humor e o comportamento. Os alimentos orgânicos são a melhor escolha, devendo-se evitar produtos com leite e seus derivados por conter caseína e também todos que contém glúten, industrializados, com corantes artificiais, frituras, doces, refrigerantes em geral. Para não ter dificuldade em escolher os alimentos, sempre dê preferência aos que não vem em embalagens industrializadas. Obviamente se seu filho tem seletividade alimentar, o melhor é não deixá-lo com fome. Cerifique-se de que ele não tem nenhum problema de saúde como hérnias ou problemas de deglutição e se for a seletividade alimentar puramente, dê o que ele aceita e vá tentando introduzir alimentos novos aos poucos. A regra é não deixar passar fome jamais. Não seja radical, deixe seu filho comer alguma besteira de vez em quando, faz parte da vida.
Peça ao médico os exames de sangue periódicos para monitorar os níveis sanguíneos como os que medem o hemograma, as anemias, o fígado, as funções renais, a tireóide, as vitaminas, a glicose e os colesteróis.


POR FIM
Mantenha sempre a paz de espírito, a calma na medida do possível. Apresentei aqui algumas abordagens possíveis para os autistas, que são capazes de melhorar a qualidade de vida e o desenvolvimento como um todo, não só do autista propriamente dito mas de todas as pessoas envolvidas com ele. Todo mundo sabe que as dificuldades apresentadas pelo autista, quando não há o controle das manifestações características da condição deles prejudica o emocional e a vida prática da toda a família, fragiliza o relacionamento de todos e coloca em questão sentimentos importantes de uma vida inteira.
Lembre-se que atualmente a jurisprudência atua no sentido de apoiar as famílias, decidindo como favorável os pedidos feitos na justiça para que os planos de saúde custeiem o tratamento terapêutico dos autistas. Vá atrás de seus direitos se esse for o seu caso.
Se você não tem plano de saúde e não pode pagar pelo atendimento particular, procures as APAEs de sua região, eles têm atendimentos muito bons e que dão resultados ótimos.
O mais importante é não ficar parado. E se tudo o mais der errado, existe a formula mais mágica que conheço e que é infalível. Confie no poder do seu amor, da sua fé, não perca as esperanças por mais difícil que a situação se apresente. Se você entrar em desespero, apenas esvazie sua mente, respire fundo e concentre-se em sua respiração, viva o momento, sinta sua vida em você, tome fôlego e siga em frente. A vida é feita de fases, nenhuma delas dura para sempre, é uma questão de tempo, tudo muda o tempo todo.

Beijos de luz e paz. Mamãe.


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terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

Eu autista - parte final - a superação

Sempre fui uma pessoa positiva, apesar de todo o sofrimento experimentado, jamais me considerei derrotada, castigada ou esquecida por Deus. Eu estava com dezoito anos, havia conseguido terminar o ensino médio a muitas custas, reprovei novamente o terceiro ano. Concluir a disciplina de química só foi possível porque meu novo chefe pagou uma professora particular para mim.  

Eu estava com dezoito anos e consegui uma vaga de estágio em uma companhia petrolífera. A vaga era de secretariado, mas acabei indo parar no setor de segurança empresarial. Logo de cara cometi um erro grave e ali não era um lugar de cometer erros graves, o chefe veio falar comigo e eu apenas disse que não ia fazer de novo e que não tinha importância. Me lembro até hoje do tom assustador da voz dele. Ele me disse que ou eu levaria aquilo a sério ou eu cairia fora, que levar as coisas como se fossem erros escolares seriam o meu fim. Saí correndo para fora, sentei em uma escada e chorei muito. Um colega veio e me explicou com calma o porquê daquilo tudo, eu entendi. Precisava novamente tomar uma decisão que mudasse minha vida, foi aí que encontrei a dança do ventre.

Na dança aprendi a me olhar no espelho, enfrentar as tarefas em grupo, os pequenos públicos das apresentações, as dificuldades das coreografias, os xingões da professora quando eu errava, os cuidados com a roupa, a maquiagem. Também aprendi a esquecer de tudo e simplesmente dançar, sentir as batidas da música em meu coração, me envolver de corpo e alma em cada projeto, foi mágico, eu estava aprendendo a gostar de mim. Venci muitas barreiras, dei grandes passos, mas depois de algum tempo não consegui mais pagar pelas aulas e acabei saindo.

No trabalho tudo ia bem, de estagiária passei a contratada, descobri um hiperfoco em serviços de investigação, fazia tudo aquilo muito bem. Os anos foram passando, aluguei um apartamento melhor, viajava muito pela empresa, ganhei muito treinamento, dei palestras, participei de grandes trabalhos, me formei vigilante, segurança pessoal privada, fiz curso de atiradora (sou até hoje), fuga e perseguição em veículos, trabalhei com autoridades (a maioria hoje ou está fora ou está preso). Mas como sempre fui influenciável, com o tempo me tornei uma pessoa um tanto fria, passava por cima de tudo para atingir os objetivos propostos. Eu sofria, sofria demais, estava me fechando dentro de mim novamente, não sabia lidar com aquilo tudo sozinha, era um mundo novo, eu não tinha orientação, continuava sem amigos, me empolgava com facilidade, a essa altura já me assustava de menos, todo o medo que eu tinha havia se transformado em coragem, mas uma coragem perigosa, que me trouxe muitos riscos, alguns deles que geraram traumas irreparáveis.

Continuava sendo a menina estranha de óculos enormes, coque no cabelo, e sobretudo capa preta que não mudava seu jeito misterioso de ser. Aos vinte e dois anos tive a bênção de ser encontrada pelo meu marido, que sacou de cara que eu era diferente, ele topou o desafio, quis tentar. Chegou a ser alertado por um certo “parente” de que eu era uma encrenca. Ele então perguntou para a tal pessoa se eu tinha problemas com drogas e a pessoa disse que não e ele respondeu que então estava tudo certo, que quem era normal nesse mundo louco?

Em seis meses estávamos morando juntos. Eu ainda tinha crises no início, crises de choro que nem eu sabia porque, do nada começava e levava horas para passar, entrava no banho com roupa e tudo, eu ainda tentava me agredir, brigava sozinha, o sofrimento era grande, mas o amor do meu marido era tanto que nunca me deixou desistir... Resolvi sair da empresa e estudar. Entrei para a faculdade de direito. Minha saúde mental melhorou bastante. Eu estava por fio diante de tanta pressão.

Na faculdade eu estava indo bem, tinha problemas com as amizades, como sempre. As pessoas em geral sempre tiveram dificuldade de me entender, da mesma forma eu sempre tive dificuldade de entende-las também. Engravidei do Guilherme no quarto semestre, a gestação deu problema logo no início, mas fui forte e terminei o semestre. Ele nasceu com problemas, mas quando ele estava com nove meses eu consegui retornar para o quinto semestre. Levei numa boa, com algumas dificuldades até o sétimo semestre, as disciplinas que eu não tinha o hiperfoco eram uma tortura para mim, mas eu me esforçava, pegava recuperação, reprovava, deixava para o final, estava longe dos meus planos desistir. Até o dia que...

Tinha uma professora de Direito de Família que eu adorava, ela tinha sotaque mineiro, eu amava ouvir ela falar, gostava das suas feições, das suas histórias de vida, das suas aulas, tudo o que ela falava eu acreditava. Costumava observar seus cabelos, suas roupas, suas unhas pintadas, olhava com carinho, eu queria ser como ela. Minha alegria foi quando descobri que ela seria minha professora de novo em uma oficina de horas complementares. Eu nunca havia notado que ela não gostava de mim. Certo dia eu fiz uma pergunta, criei coragem e fiz a pergunta na frente de todos os alunos, coisa que eu não costumava fazer, era a oportunidade que ela esperava, as palavras da resposta dela não saíram da minha cabeça: “Kenya, tem pessoas que não nasceram para o Direito, que estão aqui perdendo tempo, olhando para as pessoas ao invés de prestar atenção no conteúdo, você não tem o menor direito de me perguntar nada, volte para o seu mundo e um dia você verá que eu tenho razão”. Eu saí da aula naquele exato momento e nunca mais voltei.

Meu filho precisava de mim, eu não tinha tempo a perder com o mundo que não me compreendia, não valia a pena. Eu estava exausta. Aquilo não era para mim.
Tempos depois entrei para a faculdade de educação física, já com vinte e nove anos. Eu queria trabalhar com inclusão, dar treinamento para pessoas com deficiência física. Peguei um estágio em uma academia de musculação, mas como sempre acabei me comportando como uma adolescente descobrindo o mundo. Não tinha limites para brincadeira, falava da minha vida abertamente para qualquer babaca que se apresentasse, eu dava minhas coisas pessoais, levava todo mundo de carro para cima e para baixo. Nunca me esqueço o dia que uma mulher me perguntou o que eu estava querendo com aquilo, que eu só poderia estar com segundas intenções. Eu não queria nada, era o meu jeito de ser.

Enquanto isso na faculdade esbarrei na disciplina de biologia celular e molecular e também na de estatística, aquilo foi literalmente impossível para mim, ainda mais tendo o Guilherme como prioridade, no auge do autismo, eu precisaria de uma dedicação exclusiva para passar nessas disciplinas e isso eu não tinha como fazer. Além disso eu tinha medo de falar sobre o autismo, não falava sobre o Gui e muito menos de mim. Eu tinha colegas que me adoravam e também tinha os que me odiavam.

Troquei para a licenciatura para fugir da biologia, mas continuava com o sentimento de medo, eu estava me perdendo, não sabia interagir de forma apropriada, me comportava como as meninas mais jovens e isso estava errado, queria cuidar da minha família, parar de sofrer com as dificuldades do aprendizado, parar de sofrer para ser aceita...
Quer saber? Eu precisava fugir! Doeu, doeu demais, dói até hoje. Mas aos trinta e um anos de idade eu descobri que não era um diploma que faria de mim uma pessoa melhor, que as pessoas, na sua grande maioria estavam comigo enquanto eu lhes oferecia algum benefício, com exceção daquelas maravilhosas que jamais me esquecerei.

Mais uma vez caí em uma armadilha, no horário escolar do Guilherme me matriculei em uma academia de musculação, eu estava acima do peso, esgotada emocionalmente, precisava da ajuda dos outros sem saber que a grande ajuda estava dentro de mim. Ao invés de fazer minha parte apenas, que aliás fiz muito bem, perdi dez quilos, defini meu corpo, eu acabei me envolvendo com a dona da loja de roupas da tal da academia que também usou e abusou da minha paciência, mas eu demorei para perceber. Até o dia que ela me mandou mensagens via whatsapp me humilhando dizendo coisas que não se diz nem para um inimigo. Saí da academia humilhada, envergonhada, com todos rindo de mim e dizendo que eu era louca. Certo dia encontrei com ela em um supermercado e ela disse para o Guilherme olhando nos olhos dele que tinha pena dele por ser meu filho e ele começou a chorar. Eu sei que a culpa foi minha, mas nunca mais vou deixar isso acontecer.

Cansei, me deprimi, sofri e resolvi me conhecer profundamente. Passei cerca de dois anos me dedicando exclusivamente ao meu filho, meu marido, minha mãe e a mim. A transformação foi incrível, foi mágica. Finalmente entrei na vida adulta, aos trinta e três anos de idade.

Nesses dois anos eu li bastante, descobri muitas coisas, me aceitei como sou, aprendi especialmente a não deixar as pessoas pisarem em mim, seja quem for. Descobri minha verdadeira vocação que é ajudar o próximo, evoluí como ser humano, me tratei.

Em maio de 2016 lancei o blog, tenho um grupo e uma página no Facebook, esta última criada em parceria com duas amigas de luta. Também escrevo diariamente para um grupo de pessoas em uma lista de transmissão no whatsapp com palavras de incentivo, escrevi um livro que não publiquei, faço visitas para as mães que precisam de ajuda seja que tipo de ajuda for.

Em 2017 recebi o diagnóstico de TDAH – Transtorno de hiperatividade e déficit de atenção, o qual já estou tratando e tem colocado minha vida em ordem. Eu não imaginava o quanto isso atrapalhava minha vida.

Muitas pessoas ainda me questionam o que me faz autista hoje em dia, perguntam se estou curada. Bem, a pessoa não tem autismo a pessoa é autista, portanto, sim sou autista. A minha vida segue alguns rituais, não consigo sair de casa se não estiver tudo no lugar. Uso a mesma maquiagem todos os dias, de domingo a domingo, sempre igual. Se gosto de uma blusa ou vestido, compro três ou quatro iguais, tenho várias botas de inverno, mas com certeza você me verá usando a mesma bota quase todos os dias do inverno porque me sinto segura com elas. Não lido bem com imprevistos, portanto se a pessoa chegar e tocar a campainha da minha casa eu não vou abrir a porta. Tem que avisar antes de ir.

Eu gosto de ajudar as pessoas, então acabo me envolvendo demais, principalmente aonde não sou chamada. Por vezes a pessoa está me ignorando e eu estou bem feliz escrevendo para ela e dando ideias de como ela pode fazer para solucionar o problema dela. Não raro a pessoa é irônica comigo, como por exemplo: “parabéns pela superação” e eu bem feliz respondo: “ah muito obrigada” e a pessoa estava brava comigo porque eu não quis acompanha-la em determinado evento, mas me propus a ir na televisão ajudar os autistas severos. Para esses casos hoje em dia sou bem direta e já corto de cara. Nunca fui vítima e também não gosto de vitimismo.

Aprendi a não dar chances de maiores conflitos, porque sei que sempre saio perdendo. Acho que quem me conhece sabe das minhas intenções. Quem não me aceita como sou, não é dando explicação que a pessoa vai passar a me aceitar. Eu continuo fazendo o bem. Espalhando o amor, gosto disso, não espero nada em troca. Acredito cegamente em Deus e nas coisas que somos capazes de atrair com nossos pensamentos e atitudes.

A perspectiva de vida de um ser humano hoje em dia é muito longa, caso eu viva bastante tenho muitas coisas em mente para fazer, sei bem onde quero chegar, quero sempre ser feliz!. Me encontrei exatamente no momento que desisti parar de buscar aceitação dos outros, sejam amigos ou conhecidos ou, ainda, parentes, hoje sou uma pessoa feliz, tranquila com meus diagnósticos, tomo minhas medicações e não tenho a menor vergonha de dizer isso. Sei que sou capaz de muitas coisas, mas minha melhor virtude, sem sombra de dúvidas é a humildade. Me esforço todos os dias para ser uma pessoa melhor, para aprender mais, viver de acordo com aquilo que Deus escolheu para mim.

Olhe à sua volta, veja a grandiosidade da vida. Sozinhos, somos como grãos de areia, mas juntos podemos ser grandes montanhas.
Beijos de luz e paz. Mamãe.


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sábado, 4 de fevereiro de 2017

Eu autista - terceira parte - a adolescência

Depois de uma infância difícil e uma adaptação ao mundo que eu esperava acontecer mas que nunca chegava, eu comecei a ter noção do que era a vida. Sonhava com o dia que fosse adulta para ter minha própria independência, sempre soube que seria incapaz de cursar uma faculdade, mas algo dentro de mim me dizia que eu teria outras alternativas.

Eu não posso mencionar detalhes da minha história por não ter autorização, por motivos óbvios, de pessoas importantes que foram fundamentais em diversos acontecimentos, a maioria deles tristes, mas que me tornaram imune ao sofrimento e fizeram com que eu transformasse tudo em energia ao meu favor.


Nos mudamos de São Paulo para Porto Alegre em busca de um sonho, um sonho de paz, de tranquilidade, de uma vida melhor... Minha cabeça estava uma confusão terrível, não tinha casa, não tinha mais meu pai, não tinha mais minhas coisas, tudo havia ficado para trás. Morávamos de favor com parentes, até que conseguimos alugar um apartamento para nós. 

Minha mãe foi trabalhar em uma padaria no centro da cidade e minha depressão foi profunda. Eu passei a ter ataques de gastrite e o atendimento no SUS era dos piores que se possa imaginar. Era inverno, ano de 1996, um dos mais frios que minha mente registrou até hoje. Eu não estava preparada para isso. Aonde eu morava anteriormente não fazia frio como aqui. As aulas iniciavam de manhã, eu simplesmente não conseguia ir para a escola. Vestia uma jaqueta jeans e uma camiseta de manga comprida para sair às sete horas da manhã, de ônibus, no frio de dois graus ao vento. Não fui forte o suficiente para aguentar. Eu não conseguia comer e minha mente não conseguia funcionar.

Minha mãe foi chamada na escola para conversar com a psicóloga, a diretora, junto comigo e uma professora e lá ouvimos o que minha mãe considera a maior ofensa que ela já ouviu até hoje quando o assunto sou eu. A psicóloga disse a ela que as outras crianças riam muito de mim, que eu não tinha condições de me socializar, que eu não tinha roupas para vestir e que eu faltava muito, para ela, a psicóloga, só havia uma solução. Ela sugeriu para minha mãe que me tirasse da escola, que eu parasse de estudar para poder trabalhar e ajudar em casa. Não consigo conter as lágrimas ao escrever isso. Aquela moça destruiu meus sonhos naquele dia. Mas fomos fortes. Me esforcei, a primavera chegou e eu terminei o ano. Com a mesma roupa, sem comer e passando a roleta por baixo porque não tinha passagem para o ônibus.

Antes de completar quatorze anos eu tive que sair de casa. Um problema horrível e que tinha muita prioridade não permitiu que minha mãe ficasse comigo. Passei em casa de amigas, de conhecidas, até que passei a morar em um sótão de uma garagem que me emprestaram e depois aluguei uma garagem de verdade para mim. Consegui meu primeiro emprego em uma fábrica que produzia plásticos, passei a estudar a noite, no oitavo ano do ensino fundamental. No ano seguinte, quando passei para o ensino médio, me inscrevi no curso técnico de secretariado e consegui meu primeiro estágio nos Correios...

Foram anos passando frio, fome, dormindo às vezes no chão. Mas o pior disso tudo foi a incompreensão do mundo. Passei uma adolescência conturbada. Como eu não tinha limites, não sabia parar, fiquei embriagada pela primeira vez aos quatorze anos, quase entrei em coma alcoólico, não fui socorrida, mas apanhei na cara, urinei nas calças, paguei meus pecados.

Eu era inconveniente, não sabia conversar, se ia dormir na casa de alguma amiga eu não tinha assunto e o que mais incomodava as pessoas era a minha mania irritante de observar os detalhes, eu era capaz de observar cada pedacinho da pessoa, desde os dedos dos pés até a ponta da orelha. Fazia perguntas inconvenientes e quando falava, acabava falando demais, como se a pessoa fosse um padre e eu estivesse diante de um confessionário.
Facilmente levava um fora, sempre as pessoas tinham uma desculpa para não estar comigo. Ah como doía, mas era vida que seguia. Não sei porque, mas desde muito pequena apesar de tristonha eu tinha uma positividade fora do comum. Na minha cabeça eu iria sair daquela situação de um jeito ou de outro. E nas piores horas eu sempre tive uma boa alma que me estendesse a mão. A solução aparecia, a ajuda chegava, o milagre acontecia.

Eu buscava conversar com pessoas de mais idade que eu. Não suportava me relacionar com pessoas da mesma idade. Elas não conseguiam me entender, eu sabia que elas riam de mim e isso me gerava verdadeiro pânico. As pessoas mais velhas sempre tinham algo a ensinar. Então eu gostava de conversar com as pessoas que já tinham se dado bem na vida, que tinham superado dificuldades e eu perguntava para elas como haviam chegado àquela etapa da vida e na minha cabeça eu ia registrando tudo para poder fazer igual depois.

Confesso que a essa altura da vida o autismo já não era uma lembrança viva na minha cabeça, eu me achava feia, fora de contexto, buscando aceitação das pessoas. E talvez esse tenha sido meu grande erro. Eu era facilmente influenciável, como eu queria ser aceita acabava comprando a ideia de qualquer monstro que se atravessasse pelo meu caminho.

Com dezesseis anos troquei de estágio em busca de um salário menos pior. Fui ser secretária de um advogado que trabalhava sozinho. Um senhor de idade muito bravo e exigente. Foi terrível, eu ficava sozinha o dia inteiro, mas aguentei por um ano e dois meses lá. Ia a pé trabalhar, de lá a pé para a escola, a pé para casa, já não podia mais passar por debaixo das roletas e a situação financeira ainda era um caos. Ou eu morava em um apartamento e andava a pé, ou andava de ônibus e voltava para as garagens de 50 reais por mês. Reprovei o segundo ano do ensino médio, não aguentei tanta pressão e desisti do curso técnico que era integrado com a escola. Refiz o segundo ano, tentei novas amizades e só me machuquei. Até hoje ainda não entendi porque certo dia cheguei na escola e tinham coisas horríveis escritas no quadro para uma amiga minha. Todos diziam que tinha sido eu e ela queria me bater, chegou a me pegar pelos cabelos, seguraram ela, mas não seguraram a raiva de uma turma inteira contra mim. Meu mundo havia desmoronado, eu não tinha feito aquilo, eu via o sorriso dela por trás das pessoas, satisfeita com a minha derrota, mas não entendo porque isso aconteceu, porque fizeram isso contra mim...

Em casa as dificuldades só aumentavam, minha imagem era destruída pouco a pouco diante do espelho. Tinha crises cada vez piores, chorava, me batia, me mordia, arrancava os cabelos, urrava, babava, as vezes quebrava tudo, mesmo morando sozinha, as crises vinham. Um dia uma vizinha gritou dizendo que ia chamar a polícia. Decidi por conta própria consultar um psiquiatra do plano de saúde que o estágio oferecia. O cara, usando o argumento de que precisava entender porque eu me achava feia, mandou eu trancar a porta e tirar toda a roupa para ele ver meu corpo e dar sua opinião. Saí correndo, claro que sem fazer o que ele mandou, mas morrendo de medo, eu tinha ido em outro que tinha me dado uma lista com treze medicamentos para tomar, eu também tinha ficado com medo. E agora? O que eu faria? Fui para a farmácia e comprei toda a medicação, comecei a tomar. Cerca de um mês depois tive uma rigidez muscular na mandíbula que a travou atravessada com a arcada dentária de cima. Só gritei tanto assim na vida de novo quando meu filho nasceu. A dor era insuportável, fui para a emergência do hospital, estava entrando em convulsão...

Depois disso minha mãe me acompanhou até uma psicóloga que sugeriu uma internação, ela viu que eu estava no limite. Com 17 anos, 1,62m de altura, pesando 39kg, intoxicada de medicamentos... Minha mãe não aceitou, pensou que se me internassem em uma clínica psiquiátrica seria meu fim. Eu fui para casa sozinha, me tranquei no apartamento, joguei todos os medicamentos pelo vaso sanitário e esperei a crise de abstinência chegar. E ela chegou, foi horrível, eu vi coisas, queria morrer, gritei, me atirei no chão, pedi socorro, desmaiei... Na segunda-feira fui trabalhar, não podia perder o emprego, ninguém podia desconfiar, eu tinha que começar a comer. Eu precisava reagir, não podia me entregar. E assim foi, sobre eu estar abatida, apenas disse que havia passado mal, o que não fez muita diferença, ninguém prestava atenção em mim.

O lado bom de tudo é que a mente do ser humano é poderosa, opera milagres. Tem uma capacidade incrível de se recuperar. Nesses anos todos, em que se passou tudo isso e que narro apenas a mínima da mínima parte da história me tornei forte, aprendi a lutar, descobri que a força interior é o Deus que temos dentro de nós. E isso pode nos levar muito mais longe do que imaginamos.

O início da minha grande transformação foi quando comecei a dançar. A dança do ventre me levou para dentro de mim, enfrentei não somente os pequenos palcos aonde me apresentei, mas descobri uma menina que nunca havia conhecido, corajosa, competente e com uma capacidade gigante de superação.
No próximo post, a quarta e última parte. Aguardo você.


Beijos de luz e paz. Mamãe.
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quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

Eu autista - segunda parte - o diagnóstico

Eu nunca havia mencionado assim abertamente que eu era autista. Sempre falei somente sobre meu filho, quanto a mim eu dava apenas pistas, deixava no ar. Mas depois que falei uma vez, perdi o controle da situação e então não tinha mais volta. Minhas caixas de mensagens lotaram, eram muitas perguntas e achei justo e correto falar sobre isso abertamente... Até mesmo porque se falo do meu filho, é importante para ele que eu fale de mim também... Continuando de onde parei no post anterior, cheguei aos sete anos muito magra. Ao trocar os dentes a situação piorou. Meu dentes eram gigantes, meu rosto pequeno, meu corpo extremamente magro, a pobreza a essa altura já havia tomado conta. Tudo era precário, vivíamos no limite em todos os sentidos, na periferia, com o mínimo suficiente para sobreviver.

Era o ano de 1990 e estava muito na moda se falar em autismo, porque haviam criado uma associações de pais de autistas na época, então se falava disso na escola também. Eu entrei para o que se chamava de primeira série e em um segundo episódio de crise de choro na escola minha mãe foi chamada e alertada sobre a possibilidade do autismo pela segunda vez. Eu havia levado um brinquedo que ela tinha comprado no bazar, mas que ainda não havia pago, a professora titular que era minha referência havia adoecido não tinha ido dar aula e uma substituta foi no lugar. Não entendo até hoje o porquê, mas ela retirou meu brinquedo e disse que não iria devolver porque eu estava me comportando mal. Eu chorei e gritei até minha mãe chegar, me lembro de soluçar tanto que até tinha dificuldade do ar entrar. Fui parar na direção e nem mesmo o fato de me devolverem o brinquedo me fez parar de chorar. Aquilo para mim foi o fim do mundo. Minha mãe me trocou de escola...

Em casa eu seguia brincando com grãos de feijão como se fossem pessoas em plantas de apartamentos à venda nos jornais de domingo, gostava de escutar música em um radinho amarelo com fones de ouvidos, depois que o trauma da música passou eu então passei a amá-las - exatamente igual ao meu filho hoje. Não entendia piadas, não sabia conversar, não aguentava caminhar, não tomava sorvete porque se caísse um pingo na roupa eu chorava até que trocassem para mim. Os fios de cabelo tinham que estar sempre extremamente alinhados, na hora de dormir eu tinha um ritual e era capaz de ir fazer xixi vinte vezes antes de dormir definitivamente. O detalhe é que eu dormia na parte de cima do beliche e na sala. Enquanto eu não levasse um xingão bem alto eu não parava de ir ao banheiro e voltar para cama. E dormia repetindo o mesmo som que saía da garganta e batia nos dentes, voltava para a garganta e saía de novo e batia nos dentes, era um ciclo que só acabava quando eu finalmente pegava no sono, era a única coisa capaz de afastar todos os monstros que me traziam tantos medos...

Eu era sensível demais, ouvia demais, doía demais, até mesmo um grão de areia que entrasse no sapato me fazia paralisar e empacar aonde quer que eu estivesse. Eu pisava com os pés descalços, não tocava em texturas diferentes, não brincava na terra, não olhava nos olhos, não aprendia, não prestava atenção. Ou falava demais ou não falava nada. Quando perguntava algo era sempre uma pergunta sem sentido. E eu era capaz de ficar horas e mais horas olhando para o céu. Os temporais sempre me fascinaram, os dias de sol me deixavam triste, não que eu não gostasse, mas eu me sentia como um pássaro numa gaiola. 

E foi na nova escola, no segundo ano que minha mãe foi chamada pela terceira vez e pela terceira vez ouvi falar em autismo. Eu só queria brincar com uma menina, que por sinal não queria saber de mim. Eu escrevia de frente para trás, de baixo para cima, era considerada um desastre. Achavam que eu tinha preguiça porque para algumas coisas eu era esperta, como por exemplo para contar moedas, isso eu amava, mas era o único jeito de fazer contas. Eu me prendia em detalhes e adorava eles, se a professora fosse com uma blusa com um desenho que eu gostasse eu ficava olhando somente para o desenho e depois para o cabelo e depois para os óculos. Eu sabia todinho o conteúdo da professora e de quem me interessava, mas eu não sabia o que era dado em sala de aula.

Após a reunião com a direção minha mãe me levou ao pediatra, até porque eu sofria com uma dor de cabeça interminável que me consumia, dor nas pernas, sono, fraqueza, eu estava sempre quase morrendo como diziam...

O pediatra logo que me viu me disse que eu era linda, o que eu achei um absurdo, afinal, eu era feia que era um raio e ele era um homem adulto, aquilo me assustou, depois me pediu que lhe desse um beijo, eu senti muito, muito medo mesmo. Ele tentou conversar, mas eu estava resistente. Quando ele mandou tirar a roupa para examinar (eu fui de macacão), aí foi o fim do mundo, lá se foram os gritos e choro de novo, fiz o exame a força. Sim, eu era autista. E agora?

E agora que minha mãe sabiamente nunca contou pra ninguém. Nem mesmo pra família. Ainda tinha o mito de que a mãe era culpada pelo autismo como “mãe geladeira”, o que ela estava muito, mas muito longe de ser, minha mãe sempre foi mais pra forno do que pra geladeira, minha mãe era tanta segurança para mim que quando ela saía eu entrava no roupeiro e ficava entre os cabides de suas camisolas sentindo seu perfume até ela voltar. E tínhamos o agravante da pobreza, da falta de recursos, de dinheiro, onde tratar? Como medicar? O que fazer? Se for mesmo é algo muito leve...

Me lembro muito bem que voltamos para casa aquele dia num silêncio diferente, minha mãe, sempre muito forte, pensativa. Tinha uma família de cinco pessoas para cuidar, uma criança que era um amor, mas ao mesmo tempo aos olhos dos outros era um problema, não ia se dar bem na vida... Tomamos três ônibus para voltar para casa, todos lotados, como de costume vomitei em um deles, depois de umas três horas e meia chegamos em casa. Minha mãe sempre dizendo que se uma pessoa foi capaz de conseguir algo é porque outro também pode. Costumava dizer e diz até hoje que nada é impossível.

Ela usou o reforço positivo, sempre falava que eu iria conseguir, dava forças, dizia que eu era inteligente, não se abalava nem em meio ao caos e olha que enfrentamos muitos caos e de todos os que passamos eu acho que fui o menor deles.

Mudei de escola novamente, um grande impacto, tudo novo. Demorei um tempo para me adaptar, dois anos se passaram... Mas desta vez ao invés de ser apenas quietinha e diferente eu passei a fugir da sala de aula e logo após passei a fugir da escola também. Me encantei com a morte e me fissurei em escrever poemas sobre ela, tinha uma agenda onde escrevia poemas diariamente sobre morrer e se libertar e assustava a todos com isso. Ninguém queria saber de ficar perto de mim. Eu estava com onze anos, trocava o dia pela noite e no quinto ano escolar só passei em matemática porque tinham medo do que eu escrevia... Por dentro eu estava pedindo socorro, não sabia me expressar, achava que iria me parecer com Raul Seixas e um milagre aconteceria, mas foi bem diferente disso, eu só estraguei tudo...

Nessa idade eu já conversava bastante, o problema é que nunca soube diferenciar quem era bom de quem era ruim e também não sabia a hora de parar. Não sabia ter limite com nada, nem com brincadeira, nem com coisa séria. Muitas pessoas se aproveitaram disso para cometer as mais diversas maldades contra mim. E eu era sempre a última a perceber...

Entrei na adolescência antes da hora, saí de São Paulo e vim para Porto Alegre. Perdi toda a minha referência de vida, de lugar, perdi meu pai, minha casa, meus objetos pessoais, enfim, tive que reaprender a viver, sorte mesmo foi ter minha mãe...

Lembre-se que de nada adianta você se mudar de lugar infinitas vezes se todas as vezes você se leva junto. A grande verdade é que você precisa se aceitar. Eu aprendi isso aos trinta e um anos de idade.

A história continua no terceiro post...

  
Beijos de luz e paz. Mamãe.
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