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quinta-feira, 23 de março de 2017

Um autista idoso...

Estou acostumada a falar sobre crianças, jovens e adultos. Mas um encontro mais do que especial tocou meu coração e vi que era hora de escrever sobre uma das classes que mais amo lado a lado com as crianças – os idosos...



Eu estava sentada em uma praça, tempo se preparando para chuva, dia típico de outono. As folhas secas caíam juntamente com o suave vento que me tocava a face. Uma vontade imensa de chorar se abateu sobre mim, o mais íntimo de minha alma doía, a pressão dos acontecimentos recentes me assustaram muito, a falta de um contato físico eficiente, com pressão e demora me fez sentir como se estivesse caminhando em um planeta desconhecido e me deixava com uma sensação de vazio que precisava passar.
Faltavam dez minutos para que eu buscasse Guilherme na terapia dele e eu pedi a Deus que me enviasse um anjo com o poder de colocar meus pés no chão. Fechei os olhos, voltei minha cabeça para o céu e quando abri os olhos novamente vi que vinha em minha direção um senhor de idade, mas ele tinha algo de especial. Percebi em seu semblante que se tratava de alguém com quem eu simpatizava muito, mas ainda era cedo para concluir. 

Ele sentou ao meu lado, olhou em volta, rapidamente me vigiou da cabeça aos pés, sorri. Ele então me disse: “você não precisa conversar por educação, pode ficar quieta se quiser”. Meu sorriso se abriu de uma forma tão intensa que ele olhou dentro dos meus olhos, tocou no meu cabelo e perguntou meu nome. Naquele segundo mágico em que eu entrava em seu mundo veio uma moça, bonita, bem maquiada, toda de branco, se desculpando e me dizendo que ele é autista. Não contive a emoção, baixei a cabeça, vi a terra debaixo dos meus pés, o barulho da areia se enroscando na sola do meu tênis velho que não canso de usar. Ela então chamou ele e disse para que me deixasse em paz. Em um impulso toquei no braço dele e disse “não!”. Ele voltou a me olhar, ela parou, de repente ela parece que foi extraída daquele lugar, era eu e o senhor autista, dois autistas dividindo dois mundos em um mesmo mundo.

Ele me perguntou o que eu queria. Lhe disse então que queria que soubesse que ele era eu amanhã. “Também sou autista” eu lhe disse e completei dizendo que tenho um lindo menino também autista. A resposta dele para mim foi que tinha pena e eu perguntei porquê. Ele se justificou dizendo que pessoas como eu não deveriam sofrer. Olhei para ele, toquei sua mão suave e disse que autistas não sofrem, levam uma vida de sinceridade, que nem sempre tem um monte de gente por perto, mas que quando tem são pessoas de verdade. Que autistas podem viver suas vidas falando sobre o que sentem verdadeiramente e sabem que só irá aceitar quem tiver o coração puro para o amor. Ele sorriu, vi uma lágrima em seu olho e sem falar nada ele tocou em minha testa e se foi...


Me levantei, dei uns passos em direção a ele e então ele se virou para mim, em um silêncio que só o vento era capaz de quebrar ele me deu um abraço. Eu lhe disse que entendia a dor dele e por isso eu estava lutando por um mundo melhor. Ele então sorriu e me falou que eu poderia ter aparecido na vida dele trinta anos antes...

Saí dali correndo, estava na hora de pegar Guilherme. Meu coração estava acelerado. Mas meus sentimentos haviam se organizado novamente e então eu entendi a importância que minha geração tem em preparar o mundo não apenas para as crianças autistas que ainda vão nascer, mas também que devemos preparar o mundo para todos os autistas, que assim como eu chegarão na velhice e precisarão de carinho, compreensão, amor, cuidado, proteção.

A ingenuidade continuará a mesma, as manias, as preferências por assuntos restritos, a sinceridade extrema, a sensibilidade sensorial. Teremos necessidade de acompanhamento terapêutico, fisioterapia (com sorte iremos nos dispor a fazer atividade física). Vamos precisar de pessoas com o dom de cuidar, de amar, de ouvir mil vezes a mesma história, a mesma pergunta, a mesma teimosia...
Pense em como você pode se preparar para ajudar. Sei que você também será um idoso até lá, mas preparar as crianças que hoje convivem com nossos filhos é pensar em um mundo melhor, mais consciente e preparado para viver em união.



Com amor. Mamãe.


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kenyadiehl.wixsite.com/olhandonosolhos

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https://revolucaoebook.com.br/onsales/olhando-nos-olhos-autismo-me-ame-como-sou/



terça-feira, 14 de março de 2017

A figura paterna no autismo

Lemos muito sobre o autismo, as dificuldades enfrentadas pelas mães, a luta que é viver buscando o que há de melhor para o filho que precisa de uma adaptação especial em todos os sentidos. Sabemos da solidão que enfrentamos, de todo o julgamento, a perda quase que total de nossa liberdade de escolher o que, como e quando fazer alguma coisa, seja por nós mesmas ou pela família. Por mais que tenhamos outras atividades associadas ao cuidado com o filho, nossos dias são de dedicação, desenvolvimento, planejamento, um universo a parte. Mas e os pais? Quem são estes homens que colocaram no mundo esses filhos autistas e que raramente aparecem?



Na minha jornada pelo universo autista observei, conheci e conversei com alguns tipos de pais. Cada um com uma visão de mundo, uma motivação para ser quem é, uma história de vida que o levou a ser assim.  Basicamente tive a oportunidade de me aprofundar um pouco mais sobre quatro tipos de personalidades paternas.

O pai guerreiro: Aquele que assumiu os cuidados com o filho em sua integralidade. Muitas vezes por ter sido abandonado pela esposa e cria sozinho o filho dentro do espectro, outras vezes ficou viúvo, em outras teve a esposa acometida por alguma doença. Esses pais levam a vida  tratando, dando amor, vivendo as dores e as lutas do dia a dia. Alguns abandonam seus empregos e vivem com o benefício do governo, se entregam de corpo e alma para que a vida seja o melhor possível para o filho, lhe dá proteção, compreensão... como ninguém mais faria. São verdadeiros seres de luz que não se entregam, dia e noite em uma vida de entrega total em nome do amor e da superação. Os dias são difíceis, sofridos, o reconhecimento é pequeno por parte dos outros, a solidão é imensa, os sonhos ficam para trás, a dor é gigante, mas a recompensa é grande também, o amor que o filho tem por ele, aquele olhar, aquele toque, a confiança, a cumplicidade, um mundo que só pai e filho são capazes de descrever.

O pai presente: Este é o marido que está presente na vida do filho, da esposa e da família. Compreende as dificuldades do autismo, ajuda no que é possível, como prover as condições necessárias para os tratamentos, apoio em atividades específicas como levar para a escola, dar banho, brincar, especialmente quando solicitado. O pai que tem a figura masculina importante, que é uma referência para o filho, que abraça a causa quando tudo vai mal. Por mais que as coisas pareçam difíceis em dados momentos este pai ama seu filho do jeitinho que ele é, ajuda no seu desenvolvimento enquanto ser humano e vibra a cada vitória conquistada. Mesmo pais que se separam, quando são presentes podem ser excelentes pais.

O pai ausente: Vi esses pais em casos de separação em que o pai não se importa com a criança, não faz questão de visitar, não se importa com os problemas do filho e muito menos de sua companheira. Existe dentro desse quadro de pai ausente aquele pai que mesmo estando dentro de casa parece não ver o que se passa à sua volta, não compreende as dificuldades do espectro, cobra demais e participa de menos. Por vezes quer mais atenção que o filho, exige, dá trabalho e torna a autoestima da mulher ainda mais baixa.

O pai que não é pai: Infelizmente tenho que falar sobre o pior tipo de pai. Aquele que não é pai. O homem que engravidou a mulher e que, por alguma razão, não assumiu a criação do filho ou, ainda, abandonou a própria sorte, independente do autismo. Tem também aquele que, após o diagnóstico foge da realidade, entende que é algo que não consegue lidar e por isso acha que deve sair e viver sua vida em total integralidade. Nega o autismo terminantemente, acredita que é tudo culpa da mãe, que um filho seu não poderia ter nascido assim e vai embora deixando um rastro de destruição emocional.

De maneira geral tenho notado que os homens demoram mais a digerir o diagnóstico de autismo. Imaginam ser uma fase que logo passa e que toda criança passa por isso... Não raro acham que a mãe está esgotada, ainda sobrecarregada com o acúmulo de funções desde o nascimento do filho e pensam que tudo é uma grande confusão que em breve irá se resolver. Mas o tempo vai passando e não se resolve. O problema se agrava e o sofrimento de todos também. Na cabeça do homem é infinitamente mais difícil de entender que o filho será diferente dos demais, principalmente do caso de filho menino. Existe o sonho do filho companheiro, que irá jogar bola com ele, pescar, ir ao cinema, olhar as meninas na praia. De repente aquele menino só quer girar tampas de panelas, prefere objetos a brinquedos, chora muito e não fala nada. Se para um pai de filho neurotípico já não é fácil entender as mudanças de fases e as flutuações emocionais, imagina para o pai do autista, que nem sequer pode imaginar aonde chegará a independência daquele filho.

Mas, com o devido tempo que é necessário para processar toda a mudança que um diagnóstico traz, o pai que é pai, independentemente do seu grau de envolvimento no dia a dia, se entrega, se doa, não olha mais para trás, para de projetar um filho ideal e passa a amar o filho real. Descobre o verdadeiro sentido de ser pai, o sabor de cada conquista, o valor que tem cada lágrima, o valor que tem deixar o orgulho de lado para dar lugar a um sentimento muito mais nobre chamado humildade. Uma relação em que o grande mestre é o filho e em que todos os dias são um presente em que não se perde tempo com medos egoístas, mas se ganha tempo com a coragem de um leão que defende sua cria.

Este novo pai é o norte do seu pequeno grande guerreiro, é a imagem que ele tem a seguir e então este novo pai é tomado de uma coragem antes desconhecida por ele próprio, que não é a mesma coragem que tinha quando adolescente para brigar por seus ideais, mas é uma coragem tomada por uma força sobrenatural, que só um pai de filho especial é capaz de entender. Aquela força de quem bate no peito e diz: “Eu consigo”!
Esses pais a gente vê de longe, não precisa procurar. Eles são identificados pelo olhar, pela sintonia com o filho, a interação entre eles é perfeita, não precisa mediação, não precisa interpretação...

Talvez você, pai que lê este texto se veja nestas palavras. Você um pai herói, tem minha admiração. Talvez você, pai que lê este texto pense que não é o seu caso, que você não é um pai herói. Para você eu dedico este texto também, porque eu acredito que nunca é tarde para amar. Cada ser tem um tempo para despertar o seu crescimento e envolvimento com as batalhas da vida. Às vezes tudo o que é necessário é apenas tempo. Não se sinta pressionado pela sociedade, pelo diagnóstico, pela família, por você mesmo... Concentre-se no seu filho, no amor que você tem por ele e tudo flui naturalmente.

Você deve estar se perguntando como escrevi este texto sobre pais se sou mãe... Apenas analisando meu marido, o tempo que ele precisou para se adaptar e a interação que ele tem com meu filho depois de ter desenvolvido o mais lindo dom de ser o melhor pai do mundo.

Sabe quem é o melhor pai do mundo? Você! Cada pai é o melhor pai do mundo para o seu próprio filho, Deus fez tudo de forma perfeita, a nossa parte é abrir os olhos e enxergar as bênçãos que nos foram entregues e chamados de filhos.


Cada pessoa tem em sua passagem por este mundo o seu grau de sofrimento e também de alegrias. Saber respeitar a dor do outro é importante para não atrasar nosso próprio crescimento espiritual. Se você vê alguém sofrendo e acha que o problema desse alguém é pequeno demais para merecer atenção é porque lhe falta compaixão. Pense que dentro da escala de dor daquele ser, determinado problema pode ser pesado demais para ele enfrentar sem se abater. Algumas pessoas são naturalmente mais fortes que outras e sermos diferentes ajuda a sermos compreensivos, a aprendermos uns com os outros. Não deixe que a tentação da comparação tome conta de você. Cada pessoa sabe onde sua dor é maior e o dever de cada um de nós é ajudamos uns aos outros, livres de julgamentos e tomados pelo amor de Deus, que é a verdadeira missão que nos foi dada ao sermos colocados nesta linda escola chamada vida.

Você, papai, tem muita importância na vida do seu filho. Muito mais do que você pode imaginar. Entre no universo dele e descubra o paraíso que há entre vocês dois.

Beijos de luz e paz. Mamãe.

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