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segunda-feira, 17 de abril de 2017

Além dos ovos de páscoa


Nem sempre as coisas saem como planejamos ou como esperamos. A maioria das pessoas espera pela sexta-feira Santa para reunir a família, comer peixe no almoço e orar. Sábado de aleluia, dia de missa especial para os católicos e o querido domingo de páscoa, que representa a ressurreição de Cristo. Dia em que as crianças seguem as pegadas do coelhinho para procurar os ninhos de ovos escondidos, cheios de chocolate, doces e gostosuras... Depois de uma longa noite de espera em que se dorme apenas para passar mais rápido, os pequenos colocam um pote com água e umas cenouras bem próximo à entrada que provavelmente o coelho irá usar para deixar os presentes... Os pais, por sua vez, empenham-se em deixar tudo lindo, pegadinhas de farinha pela casa, locais estratégicos para a caça aos ovos... E então de manhã os chocolates são comidos ainda na cama, antes do café da manhã...



Quem tem uma criança autista em casa sabe que todo esse roteiro não tem exatamente esta mesma forma. Geralmente as datas não são muito esperadas, além do que, existe a ansiedade pelos encontros em família, a saída da rotina... E nesses momentos precisamos de pais bem preparados para passar por mais este dia sem sofrimento ou comparação do seu filho com as demais crianças. 


Ter filhos envolve abrir mão de uma vida própria em prol de uma vida em família - e aqui o conceito de família se estende a todos os tipos de família possíveis e imagináveis. Dar a vida a um filho, seja de sangue ou adotivo muda todas as nossas perspectivas de vida. E em cima disso acabamos mudando a direção de nossos ventos. Aquele tão sonhado carro do ano ou o último lançamento do "Fashion Week" dão lugar a coleções de chupetas coloridas, um vasto conhecimento sobre desenhos animados, incontáveis filas para tirar foto com pessoas fantasiadas de personagens de cinema... Passamos a amar a fada do dente, voltamos a acreditar em Papai Noel, Coelho da Páscoa e até na bruxa do Halloween. Todas essas fantasias que voltam em nossas mentes e que estavam desde a infância guardadas e adormecidas são também importantes para nós. Ver o sorriso do filho ao receber uma surpresa, ao escrever cartinhas para terem seus desejos atendidos e chorar de emoção ou medo quando conseguem ficar diante de seus sonhos nos faz muito mais do que trazer felicidade, é uma parte de nós que tem a segunda chance de viver de novo tudo aquilo que foi ou não vivido em nossa infância.



Você consegue perceber a dor enfrentada por pais e mães que esperam por estes momentos, mas que acabam não chegando? Não posso negar que já chorei ao ver Guilherme passar reto pelas pegadas do coelho e prender atenção na fechadura da porta que fazia um "barulho legal", sem nem dar bola para o que ganhou. Também por ele ter tido crises de choro ao se sentir hiper estimulado com as cores brilhantes dos celofanes que envolviam os ovos de páscoa ou ter crises de choro ao comer os chocolates e aquilo ser demais para os seus sentidos processarem... Acho que todos nós, pais, algum dia colocamos expectativas grandes demais em cima de nossos filhos, isso não é feio e nem errado, isso é humano.



Mas o tempo passa e junto com o crescimento de nossos filhos vem também o nosso desenvolvimento enquanto adultos e responsáveis que somos, Aprendemos que o autismo é assim, sincero, espontâneo, sem disfarces e que tudo depende muito de cada momento e dos acontecimentos que os precedem. Passamos a aceitar que o autista não gosta de surpresas. Se o Coelho vai vir e trazer um presente é melhor dizer quando ele vem, o que vai trazer e, se possível, fazer com que seja o mais próximo do que a criança gosta. Sem invenções, sem suspense. 



Meu filho muito já não ligou para a Páscoa, também muito já não gostou, não percebeu ou não fez diferença. Essa última vez ele pediu o ovo de páscoa branco, eu disse que o coelho iria trazer, ele me respondeu que preferia comprar, porque não achava legal um coelho peludo lhe dar o presente sem que ele pudesse vê-lo, ok! Ele ganhou o ovo de páscoa antes, comeu inteiro, se lambuzou (lavou as mãos a cada dois pedaços mordidos), mas se divertiu do jeitinho dele. Brincou desde a quinta-feira quando veio da fono até sábado com as orelhas de coelho que ela fez para ele, pulava, juntava as mãozinhas e fazia um barulhinho assim "snic snic"... No domingo de páscoa ele estava mais preocupado em brincar e jogar seus jogos do iPhone, descobriu que dá para pilotar drones e nem quis comer chocolates, estava fascinado com o mundo digital e a possibilidade de comandar sua próprias hélices... Eu entendo e compartilho do sentimento dele, diante de uma data que passou a ser muito mais comercial do que religiosa. Na verdade toda nossa vida autista é feita de um jeito diferente, no nosso time, com a nossa cara. Nem sempre superamos as expectativas das pessoas, mas sempre conseguimos manter a nossa paz. 



Para os pais "recém chegados" no autismo talvez esse realismo pareça um tanto distante, mas eu lhes afirmo, o sentimento de aceitação vem antes do que vocês possam imaginar. Logo a vida passa a ter um toque mais natural, mais verdadeiro e real. Percebemos que manter o sorriso nos lábios de nossos filhos é muito superior a qualquer fantasia de infância e aceitamos que infância é sempre infância, independentemente da forma como nossos filhos processam esses momentos. O que eles querem é ter liberdade, ter seu tempo respeitado. Brincar com as coisas que lhes dão prazer e não se sentir cobrados por algo que não lhes faz sentido nesta etapa da vida. 

Tenha fé, não se assuste se as coisas estão saindo um pouco diferentes do que você esperava. Tudo o que passamos na vida, especialmente as dores e as dificuldades, nos levam sempre a um caminho de aprendizado e crescimento espiritual. No momento em que estamos passando pelas provas não conseguimos enxergar a razão para o sofrimento. E é justamente isso que não devemos fazer, pois nós como filhos de Deus que somos precisamos confiar e fazer a nossa parte da melhor forma. Não busque uma razão, uma culpa ou um erro para justificar um obstáculo, lute com alegria e deposite sua esperança na sua entrega e alegria de viver. A felicidade está dentro da gente e não nos fatos e acontecimentos em si. Mas se a dor for muito grande então ela deve ser vivida em sua total intensidade, porque é justamente ao conhecer a tristeza que aprendemos a valorizar a felicidade.



Beijo muito carinhoso. Mamãe.

kenyadiehl@icloud.com

facebook/kenyatldiehl


Um comentário:

  1. Na nossa Páscoa os ovos não são coloridos, são todos azuis...
    Mas o sabor é especial, é fabricado com muito amor...
    Lindo texto, linda mensagem!

    De seu amigo e Brother.

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